Padroeira da América Latina: tem rosto do povo marginalizado

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Ademilson Lopes - padre - 26-09-13
Em 1531, no México, quando os missionários espanhóis já haviam aprendido a língua dos indígenas, a fé se espalhava lentamente por essas terras mexicanas, cujos rituais astecas eram muito enraizados. O índio João Diogo havia se convertido e era devoto fervoroso da Virgem Maria.
A primeira vez, quando o índio passava pela colina de Tepyac, próxima da Cidade do México, atual capital do País, a caminho da igreja. Maria lhe pediu que levasse uma mensagem ao bispo. Ela queria que naquele local fosse erguida uma capela em sua honra.
Deu-se, então, o milagre. João Diogo caminhava em direção à capital por um caminho distante da colina onde, anteriormente, as duas visões aconteceram. O índio, aflito, ia à procura de um sacerdote que desse a unção dos enfermos a um tio, que agonizava. De repente, Maria apareceu à sua frente, numa visão belíssima. Tranqüilizou-o quanto à saúde do tio, pois avisou que naquele mesmo instante ele já estava curado. Quanto ao bispo, pediu a João Diogo que colhesse rosas no alto da colina e as entregasse ao religioso.
E assim fez o fiel índio. Ao abrir o manto cheio de rosas, o bispo viu formar-se, impressa, uma linda imagem da Virgem, tal qual o índio a descrevera antes, mestiça. Espantado, o bispo seguiu João até a casa do tio moribundo e este já estava de pé, forte e saudável. Contou que Nossa Senhora “morena” lhe aparecera também, o teria curado e renovado o pedido. Queria um santuário na colina de Tepyac, onde sua imagem seria chamada de Santa Maria de Guadalupe.
Foi construído no local um enorme santuário, que abriga a imagem de Nossa Senhora na famosa colina, e ainda hoje se discute o significado da palavra Guadalupe. Nossa Senhora de Guadalupe é a única a ser representada como mestiça, com o tom de pele semelhante ao das populações indígenas. Mestiça, não só para se assemelhar ao povo, mas Nossa Senhora é um modelo de alguém que acolhe na cultura de cada povo e quer se fazer presença na forma, jeito e costumes. A festa de Nossa Senhora de Guadalupe é celebrada no dia 12 de dezembro, data da última aparição.
Foi declarada padroeira das Américas, em 1945, pelo papa Pio XII. Em 1979, como extremado devoto mariano, o papa João Paulo II visitou o santuário e consagrou, solenemente, toda a América Latina a Nossa Senhora de Guadalupe.
Sabemos que na América Latina a percentagem da população indígena é grande e perdendo cada vez mais a terra que lhe pertence para o agronegócio. Entre os 15 países mais  desiguais do mundo, 10 se encontram na América Latina e Caribe. Desigualdade no sentido da distribuição  desproporcional da renda entre a população.
Na América Latina, a  desigualdade é agravada pelas discriminações racial e sexual. Mulheres negras  e indígenas são, em geral, mais pobres. O número de pessoas obrigadas a  sobreviver com menos de um dólar por dia é duas vezes maior entre a população  indígena e negra, comparada à branca. E as mulheres recebem menor salário que  os homens ao desempenhar o mesmo tipo de trabalho, além de trabalharem mais  horas e se dedicarem mais à economia informal.
A miséria, injustiça, violência e tantos tipos de explorações e a indiferença de alguns políticos para com essa realidade infelizmente, são visíveis na América Latina. O povo está cansado de ser explorado, maltratado, desprezado principalmente pela classe política responsável pela administração do bem comum.
Diante dessa dura realidade é preciso erguer a voz, gritar pela vida, liberdade, saúde, transporte, em fim, pela paz.
A missão da igreja povo de Deus é lutar, testemunhar, vivenciar a fé em todos os ambientes e situações, para que a vida e o ser humano sejam cada vez mais respeitados, amados e valorizados, como gente.
Dom Oscar Romero martirizado em 1980, no auge dos confrontos políticos e sociais existentes, foi um grande testemunho cristão e eclesial na América Latina. O Papa Francisco ordenou que fosse retomado com urgência este processo de canonização de D. Oscar Romero, que por pressões políticas tinha sido arquivado.
Embora muitos tenham alergia, mas foi nesse contexto e intuito de luta pela vida, liberdade, dignidade e profecia que surgiu a necessidade de reformular a teologia e fazer adaptação à nossa realidade, assim surgiu então a chamada Teologia da Libertação aqui na América Latina.
Nossa Senhora de Guadalupe, com certeza tem um cuidado muito grande para com esse povo, sofrido e oprimido aqui na América Latina, mas nós seres humanos, precisamos lutar e dar nossa parcela de contribuição para melhorar a qualidade de vida, e dar um novo ânimo ao povo que já anda cabisbaixo devido a falta de esperança e perspectiva diante de tanta corrupção e indiferença.
“O animal satisfeito dorme” Guimarães Rosa. Na América Latina enquanto alguns dormem, outros assolados pela fome, injustiça e opressão morrem nas filas dos hospitais, nas rodovias, vítimas do tráfico e do coronelismo.

(*) Pe. Ademilson Lopes de Assunção – Paróquia Nossa Senhora Aparecida

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1 COMENTÁRIO

  1. Parabenizo o padre Ademilson por sua visão de Comunidade Eclesial de Base, com busca de vida melhor para todo ser humano. Que devemos tirar o pé do e andar rumo ao testemunho de Cristo.

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