(*) Jocenaide Rossetto

Todas nós somos movidos por sonhos. Eles dão sentido à vida, fazem-nos respirar com empolgação na esperança de um bom futuro, o futuro para o qual nos engajamos e acreditamos ser o melhor. O grande amor pela dança fez a professora Edite sonhar e lutar pelo Teatro Municipal para Rondonópolis por toda vida. TEATRO MUNICIPAL JÁ!

No caso de Poxoréu, outros “os sonhos de tão grandes fizeram as pessoas, pequenas” assim escreveu um professor/pesquisador que fez brotar notáveis personalidades, as quais mostraram-nos encantadas histórias inicialmente pouco críveis.

Joaquim Martins Siqueira, Judith Xavier, “Seu Dequinha”, Benjamin e Nelci Spadoni; formaram um grupo dessas pessoas de histórias incríveis, desconhecidas ou até mesmo ignoradas por parentes e amigos que compartilharam o brilho e a esperança plantadas há quase um século nos rincões utópicos dos sonhos. Em nosso recorte de hoje, conheça o projeto de Joaquim Martins.

O cenário é a Poxoréu da década de 1940. O sonho foi o de criar um sistema de distribuição de água para a população da cidade de Poxoréu, município até então recém-criado, o qual padecia a falta de água distribuída por sistema público. De quebra, ainda ia incrementar os garimpos de diamantes florescentes à época. Foi este o Sonho de Joaquim Martins Siqueira, o Doutor Martins: sonho tão grande quanto ele mesmo!

Quem contou foi o médico Benjamin Spadone, ilustre neto de Joaquim Martins Siqueira; ou Dr. Martins. O Dr. Martins era agrimensor, trabalhava com nivelamento de água, levantamento de terras e estradas, e também participou da Comissão Rondon.

Era uma espécie de mestre para todas as obras e fazendas; ajudou no traçado das Linhas Telegráficas de Rondonópolis-MT a Jataí–GO, em cerca de 100 Km; também foi um dos responsáveis pela abertura da estrada que liga Cuiabá à Chapada dos Guimarães.

Esses fatos, juntamente com algumas cartas do Marechal Candido Rondon endereçadas ao Dr. Martins são preservadas como obras de arte, por sua família até hoje; objetos de valor sentimental e histórico, comprovando a amizade e a partilha de sonhos, tão grandes como eles mesmos, Rondon e Martins.

O Dr. Martins era um homem rico, proprietário de uma Companhia de Transporte Fluvial em Cuiabá. Nas palavras do Dr. Benjamim Spadone, seu avô, investiu todo o seu dinheiro e vida em um sonho: trazer a água que, como sobredito era escassa na cidade de Poxoréu. Não só serviu a cidade de água, como abriu uma imensa área de novos garimpos, baseada na construção particular do o maior rego d’água que se teve notícia na região.

Explicou-nos fazendo uns rabiscos em um papel. Um rego d’água, disse ele, consiste no desvio do curso de um rio. Através de um nivelamento, faz-se com que a água corra no rego, em menor velocidade que no rio. Entretanto, enquanto diminui o passo, a água enganada em aclives, sobe pelos contrafortes e encostas, para lavar estômagos, areias; separar pedras dos diamantes, e pessoas e coisas do lugar.

Ressaltou que naquela época os regos d’água foram de fundamental importância porque permitia a lavagem do cascalho em locais onde não havia cursos d’água naturais, além de socar arroz, café e milho nos monjolos. Também para a época, eles foram revoluções tecnológicas e inovadoras mudando conceitos, modos de vida do cotidiano e sonhos de progresso para o lugar.

Inicialmente, a ideia do Dr. Martins e seu rego d’água foi recebida por galhofas e pilhérias pela chusma de irônicos do quanto pior melhor. “Nunca ele conseguiria nivelar um rio que ficava tão abaixo da cidade”, argumentavam os pessimistas moradores.

Se sonhava em fazer, como de fato fez, o Dr. Martins teve que caminhar sozinho, acreditar sozinho que seu sonho era possível; que ele seria capaz de realizar tão ambicioso e utópico projeto. O dinheiro que tinha foi para gastar no sonho, e forças física foram acarretadas pelas artérias que ligam o coração à emoção. Não faltava mais nada!

Assim, o Dr. Martins pôs em prática uma ideia sonhada, e com seus conhecimentos técnicos e espirito aventureiro empreendedor, conseguiu fazer com que a água do Córrego dos Bororos – obedecendo aos seus talentos nascidos de sonhos – desviasse e suasse em desforço no aclive por 12 km, e refizesse suas forças repousando adormecida na represa do Dr. Martins, razão pela qual, respirou aliviado e vencedor no desafio com a natureza.

Daí, como no seu sonho, a água foi levada a uma caixa, e distribuída para toda a cidade. Esta foi a caixa d’água do Rochinha. Pronto! Teriam se envergonhado os críticos, se não fosse a desídia da qual padeciam. A utopia sonhada tomou forma e tornou-se conforto e bem-estar.

Só depois de pronto, viram que era possível; que projetos complexos também são realizáveis, o que se precisa é de pessoas sonhadoras – e isso Dr. Joaquim Martins teve de sobra1.’

Lembrei-me deste capitulo de livro que escrevi com estudantes de história em Poxoréu há mais de dezessete anos passados, quando li neste conceituado jornal, o Brainstorming de autoria do professor Ivanildo José Ferreira.

Minhas memórias vagavam entre o inusitado e o viável, tal como algo familiar, parecidos sonhos de utopias irrealizáveis até que as estacionei em nossa pesquisa de campo desenvolvida há tantos anos, sobre as histórias de sonhos mais antigos ainda, hoje seguramente, mais de oitenta anos passados.

Na atualidade para Rondonópolis, no quarteirão da antiga rodoviária o professor Ivanildo propõe, como fez a professora Edite e muitos cidadãos a CONSTRUÇÃO DO TEATRO MUNICIPAL e um terminal de integração do transporte público moderno e arrojado, à altura da população local projetada para trezentos mil habitantes.

“Arquitetos da felicidade” nos grandes centros projetam estacionamentos no térreo, ambientes para exposições da cultura local; artes cênicas, pinturas, artesanatos, exposições itinerantes, cinema, teatro e tantos outras possibilidades… porque não em Rondonopolis?

Sou professora em Rondonópolis, mas não me proponho paradigma. Apenas pareceu-me hoje, o sonho do terminal integrado, mais exequível que o sonho do Dr. Martins, uma pessoa do povo, que fez em Poxoréu, a água transitar pelas encostas e morros da paisagem antiga de Poxoréu, para melhor servir seu povo.

(*) Jocenaide Maria Rossetto Silva é professora de História na UFR.

1 COMENTÁRIO

  1. Este também é meu sonho que na antiga Rodoviária, construa um teatro, quando passo naquele local imagino o teatro de grande porte de acordo com nossa cidade, que é tão pobre em cultura, artista nós temos locais, falta espaço para mostrarem suas obras. Vir também grandes peças e shows de nível, do eixo Rio, São Paulo. Parabéns professora Jocianaide Maria, que esse sonhos sejam realizados.

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