(*) Roberto Barcelos

Era o ano de 1985 e minha mãe conseguira, enfim, ser contemplada com uma casinha no recém-inaugurado Conjunto São José. Eu, um garoto ainda de 19 anos, conheci um sujeito que também é morador do novo bairro, de pele negra e de olhos, ouvidos e coração abertos a todos que se aproximavam dele.

Era Benedito de Jesus Leite, que aos doze anos de idade começou a estudar música e aos quinze já se apresentava com o nome artístico de Denis Maris. Ele nasceu em Carapicuíba-SP e, antes de vir para Rondonópolis, viveu um tempo no interior do Paraná.

De voz mansa, gestos polidos e um talento sensitivo para as artes, ele trazia consigo uma humildade singular, só sua, não era a humildade subserviente, era da alma, uma característica própria de um sujeito que iluminava a gente.

Num desses acasos da vida ficou viúvo muito cedo e, assim, criar sozinho as três filhas de apenas quatro, seis e oito anos, se torna sua mais nobre e desafiadora missão. Não há tempo para choro e nem lamento, e ele segue em frente, em permanente ebulição artística, percorrendo os roteiros da vida com a simplicidade de um homem responsável, ético, honesto e com uma enorme ambição de ser o melhor que pudesse para suas filhas.

Benedito, anos mais tarde, encontra uma nova companheira, tocando em frente, é agraciado com o nascimento de mais um filho, um menino que faltava para alegrá-lo ainda mais, sim, porque a benção de um filho na vida da gente é alegria, uma alegria inexplicável.

Nunca o vi triste ou se lamentando, sempre me falava de sonhos, de arte, de música, das tintas que extraía das rochas, dos filhos e dos netos. Sem nunca termos conversado sobre religião, sentia paz a seu lado, porque sua espiritualidade era muito especial, ela não precisava ser expressada com palavras, estava explícita num corpo franzino, movido e sustentado por uma alma rara e iluminada, que não tinha ambição pela riqueza material, mas nos enriqueceu pelo convívio nesse curto espaço de tempo.

Aos 72 anos, um dia após seu aniversário, ele nos deixa sem avisar que estava partindo. Ficamos tristes, mas confortados, pois sabemos que cumpriu sua missão aqui, e que está num lugar bem melhor que este onde estamos nós. O reconhecimento que por ventura tenha lhe faltado aqui, aí será abundante. Descanse em paz amigo!

(*) Roberto Barcelos é fotógrafo profissional em Rondonópolis.

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