(*) Josenildo Rodrigues

Durante a pandemia, muitos se irritaram ao ser obrigado a permanecer em casa por mais tempo com os demais membros da família; deveriam ter ficado felizes, entretanto, essa não foi a realidade. Durante esse período, muitos casais se separaram, e também ocorreu um maior número de violência doméstica.

Para a maioria, é a primeira vez na vida que conseguiram, forçosamente se reunir todos ao mesmo tempo. Devido a uma série de circunstâncias da vida, aos poucos se perdeu o contato de um membro com o outro. Muitas vezes estamos mais preocupados com os golfinhos, e esquecemos dos nossos familiares e amigos que estão ao nosso lado, aos poucos nos tornamos seres virtuais, que não mais suporta a coletividade do núcleo familiar, nos tornamos uma espécie estranha, que prefere o virtual em detrimento do real, passamos a maior parte do tempo em um mundo que de fato não existe, e quando vamos prestar atenção no mundo real e físico, não há mais tempo, tudo já passou e não percebemos.

É notório o distanciamento entre os humanos, dificilmente encontramos pessoas dispostas a dialogar pessoalmente, vivemos a era das chamadas redes sociais, hoje tudo é feito e construído de maneira digital. Foi-se o tempo na qual as famílias se reuniam nos finais de semana para contar piadas, brincar e se divertirem de maneira coletiva, tudo isso ficou no passado, a regra agora é outra. Ninguém fala mais nada, absolutamente nada, é um silêncio profundo e monacal!

Cada membro do núcleo familiar, pega seu celular em mãos, e enfia um fone no ouvido, para apressar a sua surdez, e ficam felizes e sorridentes, é quase como o efeito de uma droga alucinante. E dessa maneira, passam a conversar com o mundo inteiro, mas não conseguem mais falar e nem se comunicar pessoalmente com um membro da família, perdeu-se o costume de socialização, tudo agora é baseado em relações virtuais, não há mais contatos físicos, desaprendemos a dialogar um com o outro, não temos mais amigos de verdade, todos são virtuais, fica mais fácil assim, quando brigamos, já de imediato bloqueamos ou até mesmo excluímos o outro. O que está acontecendo com a humanidade? O que nos levou a fazer o uso inadequado da tecnologia em nosso cotidiano? Que tipo de humanidade queremos deixar para as gerações futuras? São perguntas e questionamentos que nós deveríamos fazer cotidianamente, mas devido à correria da vida, não temos tempo para pensamento algum, estamos sempre correndo atrás de alguma coisa, que no fim, não sabemos muito bem para que estamos correndo.

Estamos vivendo em uma sociedade na qual as relações estão cada vez mais fragmentadas e frágeis, não há mais segurança, é tudo muito incerto. Segundo o autor Zygmunt Bauman, em sua obra “Amor líquido” – sobre a fragilidade dos laços humanos, Bauman nos apresenta sua percepção da fragilidade das relações humanas em um mundo moderno, cada vez mais fluido e fugaz. Ele nos oferece a noção de “modernidade líquida”, isto é, os líquidos que mudam rapidamente sob a menor pressão, sendo incapazes de manter a mesma forma por muito tempo, sendo assim, na modernidade líquida nada é feito para durar. O “amor líquido” trata de um amor seguindo a ideia dos bens de consumo, sendo utilizados enquanto trouxerem satisfação, sendo substituído quando não preencherem mais os requisitos do desejo.

A impressão que temos é que será impossível voltarmos a ser o que éramos outrora, essa liquidez, tende a se intensificar e se aperfeiçoar cada vez mais, aprofundando o desespero humano. Apesar de todos os recursos tecnológicos, nunca a humanidade se sentiu tão perdida como agora, muitos se enganam com seus seguidores ou com milhares de amigos nas redes sociais, quando percebem que tudo não passa de uma falsa amizade, se desesperam, entram em profunda depressão, para a felicidade dos psiquiatras, que nunca tiveram tantos pacientes em seus consultórios.

Como bem salienta Bauman, é preciso saber utilizar as redes sociais para nos interagir com outras pessoas, o que não podemos fazer é nos desconectar do que nos cerca, deixarmos de sentir nossos familiares, amigos, enfim, todos aqueles que nos cercam, devemos sempre está atento, se não estamos deixando de lado aquilo que temos de melhor, que é a nossa família, as redes sociais, jamais vai nos proporcionar o carinho e o afeto dos nossos familiares. Para vivermos de fato a vida, é preciso sentir o outro, a redes sociais jamais substituirá o afeto e a ternura humana, não nos enganemos, precisa-se tomar todo tipo de cuidado, para não nos tornamos um sujeito virtual.

As tecnologias serão em um futuro muito breve uma droga altamente viciante. Na China, já existem clínicas especializadas em tratamentos de jovens viciados em tecnologias, tudo nos leva a acreditar, que com o avanço tecnológico, as novas gerações, já nasceram em um mundo quase 100% (cem) por cento digitais e a probabilidade de se tornarem um drogado em tecnologia é altamente possível.

Segundo a pesquisadora Dora Góes, psicóloga do Programa de Dependências Tecnológicas do (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas), o uso descontrolado da tecnologia causa prejuízos na vida das pessoas como um todo. Elas perdem o foco das coisas realmente importantes e têm uma qualidade das relações empobrecida. Isso é pouco percebido, principalmente por quem é viciado em jogos. A pessoa perde o foco, ficam mais distraídos e retém menos informações e tem uma diminuição da memória, além de problemas como miopia e perda de audição.

É necessário que cada indivíduo aprenda a fazer o uso moderado e consciente das tecnologias, é preciso educar a nova geração, de que os humanos necessitam de contato e afeto, e máquina alguma irá substituir todas as qualidades humanas.

A pandemia foi a oportunidade que muitos tiveram para rever suas atitudes, é a chance para pensarmos em uma humanidade mais acolhedora, mais sensível, construirmos laços mais fraternos e amáveis com nossa família, talvez não teremos outro momento para revermos nossas práticas cotidianas.

(*) Josenildo Santos Rodrigues é professor e advogado em Rondonópolis. Membro da Comissão de Direitos Humanos e da Comissão de Igualdade Racial da OAB/MT,Subseção de Rondonópolis. E-mail: [email protected]

1 COMENTÁRIO

  1. adorei a abordagem do texto, diz exatamente tudo, o problema é que o texto ficou muito extenso, as pessoas atuais não conseguem nem ler mais… que pena

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