(*) Ivanildo Ferreira

“Inicia-se este livro com uma cidade que era, simbolicamente, um mundo; encerra-se com um mundo que se tornou, em muitos aspectos práticos, uma cidade.” op. cit.

São alvissareiros os dois projetos lançados neste prestimoso jornal. No espaço da antiga rodoviária: um moderno terminal de integração urbana do transporte coletivo; ou um prédio que valorize os bens e vivências já instaladas no entorno.

Chamarei de rodoviária, aliás obra que se tivesse sido construída em 1992, teríamos evitado tantos sofrimentos e prejuízos de todas as ordens nestes últimos trinta anos de história da cidade e das suas gens. Mas, por outro lado, o editorial de hoje (31/5) suscitou uma pré+ocupação: Como evitar prejuízos de todas as ordens, e bem atender os interesses das pessoas, das vivências e dos comércios da cidade.

Minha equação é básica: alimentar a onça sem matar o cabrito. O que traz perenidade, satisfação, alegrias e bons resultados para uma cidade; região; projeto; prédio…? É eu ter com a coisa construída fortes convicções de passado comum, sentimentos de pertença no presente, e a certeza esperançosa de que estaremos juntos no futuro. Isto realça a minha memória coletiva de que faço parte da cidade, e me aviva o sentimento e desejo de contribuir e sentir plena satisfação de ser dessa gens e de estar presente naquela hora, dia, lugar, casa, bairro, cidade…

Evito os pomposos títulos de ‘resgatar’, ‘revitalizar’… Resgatam-se prisioneiros e prisioneiras de muitos sistemas, até de pensamentos. Revitalizam-se desnutridos e desnutridas de amor, reconhecimentos e mais… A cidade é virtuosa e mágica e não padece de nenhum destes males. Aliás pulsa com suas gens, contagia-se com as alegrias das mães de ninos chiquitos e das flores que insistem em colorir e perfumar nossos dias. Penso que é tempo de contemplar e viver nossas vidas. Viver nossas pertenças.

Admitir que ainda amo e sou amado, amada. Por minha mãe; com certeza! E por um amor que nem sei de quem é; mas sou. E você também é. Sendo assim, vamos viver nossas épicas e lindas histórias de vida que tivemos, temos e teremos com esta cidade que me acolheu ou me recebeu. E acolheu a ti, também. Vamos transpirar nossas tradições culturais, para bem orgulhar e inspirar nossos jovens iguais a também vivê-las.

Pois bem! Volto ao pomo da discussão. É sobre a fertilidade das propostas: porque não fazermos as duas coisas? Verticalizar é preciso! Construir aquilo que foi para mim, a Estação da Luz em São Paulo nos anos 1960. Na minha visão pessoal, aquele prédio era um paraíso de cheiros, gentes, luzes, espelhos e tantas outras coisas bonitas.

Aqui, um centro de comércio e serviços; academia, biblioteca, sala de memória e EJAs, cinema, cursos de artes e de como preparar a cidade para que o turista leve boas impressões. Por fim, o grande teatro que é sonho que todos e todas produtores e produtoras culturais e consumidores de bens esperam há décadas.

A rodoviária é ponto de encontro, de velhos e contemporâneos amigos e amigas, e das pessoas que no futuro serão amigas. São pessoas que, como num teatro de mágica, sem se contratar, encontram na mesma hora, no mesmo ponto, no mesmo ônibus, o mesmo motorista e até a rodoviária, todos os dias. Turismo, contemplações e consumo podem ser de coisas locais.

Os produtores e produtoras culturais merecidamente sairão de suas casas servidos pelo transporte coletivo, como deve ser. Por sua vez os consumidores e consumidoras dos bens e produtos culturais virão e voltarão em paz e segurança via transporte coletivo, como deve ser. De todos para todos os pontos da cidade. Com os serviços para quem, em viagem única chegarão à rodoviária; pontos de passeios e vivências. Produção e consumos das coisas da cidade.

Fundamentos: Fustel de Coulanges. A cidade antiga. 1ª. edição 1864. Lewis Munford. A cidade na história. 1ª. edição 1961. Jane Jacobs. Morte e vida de grandes cidades. 1ª. edição 1961.

(*) Ivanildo José Ferreira é professor aposentado do Curso de História da UFMT.

 

1 Tempestade de ideias.

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