(*) Jerry Mill

Eu ingressei nas fileiras do Rotary há mais de uma década, no dia 5 de maio de 2012.

De lá para cá, eu tenho dedicado parte dos meus dias e das minhas noites ao propósito de saber um pouco mais e mais sobre a história da nossa organização centenária, bem como ao intuito de compreender o que exatamente motiva seus milhares e milhares de membros espalhados pelo mundo a permanecerem (ou não) fiéis ao ideal de Dar de Si Antes de Pensar em Si (Service Above Self, no original, em inglês), oficializado pela entidade no início dos anos 1950.

Eu digo isso porque, tenho notado, há diferentes percepções e interpretações sobre o que é e o que faz (ou pelo menos deveria ser e fazer) um clube rotário e um rotariano ou uma rotariana, dependendo de variáveis como faixa etária, gênero, condição social e (mormente) tempo de afiliação, por exemplo.

Adicione-se também, de forma individual ou coletiva, a participação em eventos como festivas, Interclubes, Conferência Distrital, Instituto Rotary (do Brasil) e Convenção do RI (Rotary International) para que logo se perceba que algumas arraigadas certezas rotárias precisam ser revisitadas.

Eu mesmo, no início da minha trajetória na entidade, logo percebi que o Rotary, localmente, tem várias atividades e diversos projetos tendo como foco o público externo, mas pouca (ou nenhuma) iniciativa que contemple as necessidades e/ou expectativas de seus associados e suas associadas.

Com o passar do tempo, ao tocar no tema com outros e outras fellow Rotarians, essa percepção foi ganhando uma aura de realidade bem mais que aparente, com um quê de inconformismo velado aqui e ali no que se refere a temas cascudos como direitos ou deveres e condução/participação das/nas reuniões ordinárias ou extraordinárias.

Então, sendo um dos poucos associados oriundo do campo da Educação, e mais especificamente da área da Linguagem, sempre me chamou a atenção o fato de, assim como eu, centenas de companheiros e companheiras fazerem parte de uma instituição que foi fundada em terras norte-americanas, tem toda uma tradição anglo-saxônica e conserva termos da língua inglesa nas suas comunicações internas e externas, mas a maioria dos integrantes dos clubes de serviço do nosso distrito, às vezes chamados equivocadamente de leaders of leaders, prefere ignorar essa obviedade.

Uma das razões: (quase) tudo que se possa imaginar de Rotary também pode ser encontrado com versão para a nossa língua portuguesa – bem como em outras línguas, claro. Pensamento corrente: se isso acontece, para que se dar ao trabalho de queimar neurônios à toa, não é mesmo, dear reader?

Acontece que palavras e expressões da língua inglesa pululam de boca em boca, texto em texto, na escrita ou na fala, formando uma lista de termos de uso corrente entre rotarianos e rotarianas do Brasil e do mundo que incluem Rotary, Club, International, Paul Percival Harris (fundador da entidade, em 1905), pin, major donor, chairman, End Polio Now (campanha global de erradicação da poliomielite), RYLA (Rotary Youth Leadership Award, ou ‘Prêmio Rotary de Liderança Juvenil’), YEP (Youth Exchange Program, ou ‘Programa de Intercâmbio de Jovens’), etc.

Na nossa realidade local/regional, porém, eis que nem mesmo os nomes da nossa instituição e do seu fundador (Rotary e Paul Harris, reduzida e respectivamente) costumam receber a pronúncia/ortografia adequada, como se isso fosse um detalhe, um caso isolado e de menor importância. Fenômeno esse que não é diferente com outros vocábulos recorrentes no nosso dia a dia, como é o caso de delivery, live e podcast. Bem como de um tal de ‘gúgle’, dito inocentemente por um companheiro recentemente, referindo-se ao gigante Google – que se pronuncia /gúgôu/, creio que é pertinente lembrar.

Ora, dependendo da realidade e do ponto de vista de cada um, ter mais e melhor acesso ao conhecimento e ao mundo do entretenimento pelo viés da língua inglesa faz muita diferença. Como no caso dos rotarianos e das rotarianas que já perceberam o número reduzido de oportunidades de interação que existe quando da chegada e estadia de intercambistas (jovens entre 16 e 19 anos) entre nós, pois eles ou elas, não importa de onde venham ou sua idade, geralmente são capazes de se expressar com extrema naturalidade em inglês e compreensível dificuldade em português.

Acontecendo geralmente o contrário com os nossos jovens e adultos, que ficam a ver navios, reféns da ajuda alheia ou do uso constante de aplicativos/dicionários, mesmo nas situações mais triviais, por não serem minimamente fluentes na English language, a lingua franca atual.

P.S.: Neste sentido, criamos e mantemos (com doações) o projeto English for Rotarians, com encontros remotos semanais que priorizam temas do universo rotário, que logo será estendido para todo o país. Get info!

(*) Jerry T. Mill é mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro-fundador da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras) e associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis.

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