(*)

Flavio Nascimento

Faz 134 anos que foi proclamada, oficialmente a Abolição da Escravatura no Brasil. De lá para cá, muitas foram as tristezas, sofrimentos, descaminhos, frustrações, medos desilusões, perseguições, falsas promessas, desatinos; uma verdadeira “Rua da Amargura” para Negros Pobres e Brancos Pobres; linchamentos, acusações e prisões injustas; julgamentos enganosos, errados, perversos. Também houve melhorias, em número bem reduzido, progressos, felicidades, alegrias, sendo essas conquistas, majoritariamente, bancadas por nós mesmos, nossos pais, nossos avôs e avós; poucos amigos de fato.
No balanço geral, saímos perdendo, sofrendo o Racismo que já vinha de antes, o qual aumentou e aprofundou-se, e nos fez mais vitimados, pobres, doentes. Enfim, graças a nós mesmos negros e brancos pobres, não desaparecemos, não somos seres humanos mais rebaixados e inferiorizados. No início da vida Republicana no Brasil, um dos objetivos da Elite Brasileira era o extermínio de nossa raça e nossa classe. Um dos sentidos da imigração europeia, branca e cristã, tinha tal finalidade também.

Desde a República Velha, a condição geral do negro e do branco pobre não atingiu a plenitude alcançada pelos Direitos Humanos. Não havia, por aqui, Direitos; somente Deveres e repressões sobrepunham ao único Direito à Vida, que sobreviveu capenga, reinaugurado pela Revolução Francesa: O Direito à Vida era aviltado, encerrado bruscamente; muitas vezes a Justiça Social era uma aventura contra o negro pobre e o branco pobre. Passar dos cinco anos de idade era sorte.

E o Brasil seguiu pela República adentro explorando, dominando o negro e o branco pobre. Em 1930 pareceu que seria interrompida a série de agressões e transgressões, ao ser criada a FNB (Frente Negra Brasileira) partido político criado pela comunidade negra paulistana que se propunha a disputar o Poder Político. Sua presença na realidade brasileira foi tão rápida (1930 a 1937) que mal teve tempo para ‘errar direito’, sendo sua trajetória de acertos muito menor; mas, “deu a cara pra bater”.

Face ao fracasso do fascismo europeu, nós negros viramos a chacota e a ‘fantasia’ da Nação; além de nossos problemas materiais severos, passamos a ser um espetáculo; o centro do espetáculo dos brancos da elite e remediados, para a modelagem da “Alma Nacional”. Os reis do Samba produziram o maior espetáculo da Terra: a “mulata sensação”, a “cor tigresa”, “o moreno que me enlouquece”; a miscigenação antes era proibida passa a ser o orgulho da “raça” até mesmo ao ponto de se desenvolver o racismo intrarracial e inter-racial.

Assim, apesar de todas essas aparências de mudança, o negro e o branco pobre continuavam no seu espaço vertical e horizontal enormemente pobres, senão miseráveis, doentes, analfabetos ou semianalfabetos. No entanto, tornavam-se conhecidos, famosos, sambistas, chefes de escolas de samba. Alguns poucos enriqueceram; o que foi o bastante para se embranquecerem mais ainda. Essa curiosa pequena-integração-rebaixada do negro e branco pobre parece, não sem várias dissenções, ter ocorrido dos anos de 1960 até o fim da Ditadura Militar- anos de 1980. E nesse movimento nossas religiões foram em parte acolhidas, espalhadas, adotadas, distorcidas, adoradas;
momento no qual o mito do “Negão Jóia” feliz, do “negro de alma branca” foi ganhando mais espaço.

Todo esse movimento de grande dinamismo, não retirou o negro pobre da pobreza, da miséria; também fez mais do que se diversificar o Racismo. A “Democracia Racial” costurou o restante do tecido social, e negros pobres e brancos pobres passaram a ser, aparentemente, mais felizes, pois as copas mundiais auxiliaram nesta sensação. Fomos para as periferias e as favelas de madeira e alvenaria, dando-se também a ordem inversa. É claro que frente a este movimento no qual o Samba “pediu e obteve passagem” e que “conquistamos a avenida’, continuamos tão pobres – ou quase pobres, e excluídas da Política e o Poder, doentes, semianalfabetos quanto antes. E mesmo assim auxiliamos a edificação da Cultura Brasileira, de um suposto povo mestiço – por que não dizer negro de fato; e estamos ainda quase na mesma: nossos Orixás foram reduzidos, distorcidos, levado; nossas
Inquices e Voduns também o foram… E assim chegamos a nossa contemporaneidade. Assim passaram mais diferentes gerações:

1. Hoje somos a maioria dentre os 12,9 milhões de desempregados;
2. Nos situamos, folgadamente entre a maioria dos desalentados, que somados aos desempregados e os que estão fora da economia, ultrapassam a casa dos 20 milhões;
3. Somos nós os enfrentadores e as vítimas do Racismo e da Injúria Racial (Racismo mais brando), da hipocrisia, da Ironia;
4. O Racismo e o Machismo incidem especialmente sobre as mulheres negras;
5. A Inflação de pelo menos de dois dígitos contempla principalmente negros pobres e brancos pobres (subconsumo, entre outros);
6. Abonos salariais oficiais (pagamentos de miséria?);
7. Prolongamento da jornada de trabalho (há no “Novo Normal”, ocorrência de jornadas de trabalho de 7 a 14 horas);
8. Escravidão por dívidas ou Condições de Trabalho Análogas às condições de Escravidão – maioria dos resgatados são negros e brancos pobres;
9. Racismo Ambiental: negros e brancos pobres são a maioria dos habitantes destas regiões;
10. Moradores em condição de moradia nas ruas: Negros e Brancos Pobres;
11. Vítimas de extermínio nas ruas: Negros e Brancos Pobres;
12. Escolarização básica menor ou população atrasada em relação a idade escolar;
13. Racismo Institucional e Sistêmico: maioria afetada são Negros pobres e brancos pobres, principalmente na atenção básica, junto a órgãos públicos e
14. Mortalidade materno-infantil de mulheres negras: ocorrem na maior parte dos casos por racismo e/ou negligência;
15. Nós brancos pobres e negros pobres tivemos nossas vidas mais ceifadas que a maioria entre as vítimas fatais da ação policial e do recolhimento nos presídios.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Consultando rapidamente o Espírito de Sankofa, Êle aconselhou-nos a observar melhor as experiências da década de 1930: elogiou e admirou todas as iniciativas históricas de negros e brancos pobres, particularmente, mas chamou a atenção ao ano de 1930. Ainda fez questão de frisar que embora se identifique mais com experiências, que envolvem coletividades, comunidades, toda e qualquer ação do tipo de Oxalá, é bem-vinda, mesmo que só se transformam em individuais.

Axé, Motumbá!
Kambaragikam!

(*) Carta aberta escrita pelo Professor Pós-Doutor Flávio Antônio da Silva Nascimento em prol do Movimento Negro de Rondonópolis.

1 COMENTÁRIO

  1. Disse somente verdades, professor, mas falta tanto aqui no Brasil como no mundo inteiro, com raras exceções, respeito e oportunidades iguais para todos. Mas, aqui no Brasil, com essa educação que temos, tanto em família, como na escola, deixa tudo a desejar, com raras exceções. As grandes potências não permitem que o Brasil se desenvolva, principalmente em EDUCAÇÃO, pois, a continuar assim, é um dos maiores produtores de alimento e minerais para abastecer IN NATURA a maioria dos países, pois agregar valores aos nossos produtos é tabu para os lá de fora. para o trabalhador sobra apenas um salário aviltado. A chave seria EDUCAÇÃO, PESQUISA CIENTÍFICA, ALTOS INVESTIMENTOS E FIM DOS PRIVILÉGIOS DAS ELITES DOMINANTES.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui