(*) Luís Otávio Bau Macedo

As Filipinas, em 1986, superaram a ditadura corrupta e violenta de Ferdinando Marcos. Durante décadas, o regime de Marcos implementou um despotismo representado, simbolicamente, pela coleção de sapatos de sua esposa Imelda Marcos. Em 1987, uma nova Constituição estabeleceu o regime democrático e novas esperanças ao povo filipino. Contudo, em virtude dos interesses da elite apoiadora do governo anterior, estabeleceu-se uma “anistia” aos crimes passados, e a família Marcos prosseguiu com suas atividades no exterior. Estima-se que US$ bilhões oriundos de delitos foram mantidos em suas contas em bancos na Suíça.

Esse equilíbrio frágil foi rompido na última década com a ascensão ao poder do político de extrema-direita, atual presidente, Rodrigo Duterte. Em seu mandato, baseado na apologia à violência e na perseguição à imprensa independente, a ideologia populista autoritária ampliou o seu apoio nas Filipinas. A “guerra às drogas” foi implementada sem respeito às liberdades individuais e aos direitos humanos. A independência do judiciário e do legislativo, além das forças armadas, foi solapada, mediante o financiamento de milícias paramilitares e a concessão de benefícios econômicos, em troca de apoio político.

O efeito dessa trajetória deplorável pode ser verificado com a perseguição judicial à jornalista Maria Ressa, prêmio Nobel da Paz, que já sofreu várias prisões e encontra-se sob risco de condenação, por sua luta contra os retrocessos da democracia filipina. O auge dessa involução institucional ocorre, atualmente, com a candidatura à presidência do filho do ex-ditador, BongBong Marcos, que provavelmente assumirá ao poder. BongBong tem uma campanha baseada em “fakenews” distribuídas, principalmente, pelo celular.

O conteúdo das mensagens propaga, por exemplo, de que o candidato irá distribuir barras de ouro à população, caso seja eleito, e da existência de riscos de fraudes na contagem dos votos pela Justiça Eleitoral. A sua popularidade funda-se na revisão dos feitos do regime ditatorial de seu pai, mas que foram encobertos por uma repaginação nacionalista da luta contra pretensos insurgentes “comunistas”, vinculados à sua principal concorrente nas eleições, a vice-presidente Leni Robredo.

Esse caso, de um país do sudeste asiático com heranças ibéricas, atesta os riscos de um infindável “fundo do poço” institucional, que sempre pode ser piorado. Por sua vez, a mensagem filipina chega às praias brasileiras, sob riscos semelhantes de ruptura da democracia e, no seu conteúdo, em letras garrafais está escrito “CUIDADO!”.

(*) Luís Otávio Bau Macedo é professor associado do curso de Economia da UFR e coordenador do Programa em Pós-graduação em Gestão e Tecnologia Ambiental. E-mail: [email protected]

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