(*) Hermélio Silva

Na primeira reunião que tive com o Professor Gabriel** já me encantei com sua inteligência. Culto, cortês, intelectual e de um bom papo.
Inicialmente achei que o “Bon Bagay” era seu sobrenome, e só depois descobri que era uma gíria que significa “Bom sangue”, “Gente boa”, “Camarada”.

Mas, “Sangue bom” não dá conta de definir essa expressão do creol, a língua remotamente derivada do francês que é falada na ilha caribenha. Bon Bagay está na boca dos haitianos dia e noite, como uma saudação a um estrangeiro, um chamado fraterno a um amigo, um suspiro de esperança ou um grito de decepção. Acho que é o “Boa”, que eu uso o dia todo, às vezes como sim, talvez e até um remoto não.

Li o seu texto por três vezes, numa leitura crítica e de revisão, mas não se ler o seu livro sem fazer inserções em pesquisas, porque o livro nos remete ao mundo: Brasil, Haiti, República Dominicana, Estados Unidos e França, suas línguas: português, creol, inglês e francês, e também na história, política, geografia e conhecimentos gerais.

Nas modestas intervenções que sugeri sempre lembrei ao Professor Gabriel, que ele estava escrevendo para leitores brasileiros. Tem assuntos nevrálgicos, como críticas ao general Mourão, Bolsonaro, Pelé, leis inoperantes e descumprimentos de diretrizes. Como já disse, o livro não basta só ler, tem que pesquisar para entender melhor, ou seja, é realmente uma leitura crítica e profunda.

Navega com desenvoltura por campos inóspitos, até porque isso é comum na sua vida, desde sua chegada ao Brasil, onde passou por várias intempéries, mas não recusou nenhum trabalho para se manter e aprender a ser brasileiro, e o tempo, como sempre, foi o senhor da razão e está abrindo portas para esse amigo que ora conquisto.

Desnuda muitas coisas acobertadas pela imprensa e o mundo, de modo que dá luz as obscuras ações políticas naquele país caribenho. Fala do suicídio do general brasileiro Urano Teixeira da Matta Bacellar, que comandava a Missão de Paz da ONU no Haiti, mas também fala das vantagens que os haitianos tiveram com a chegada naquele país das tropas brasileiras, os capacetes azuis. Sobre os direitos lesados dos haitianos, como o nascimento de filhos noutros países que ainda serão considerados haitianos até a terceira geração. Daí o Professor Gabriel indaga:

“Para quem está observando isso, cabe uma pergunta, que com certeza, deveria valer o salário do jogador do Paris Saint Germain Neymar da Silva Santos Júnior, por que a comunidade internacional da qual o Brasil faz parte, não se pronuncia em relação a isso?” E, até o posicionamento do cardeal católico Nicolás Jesús López Rodríguez, um dos bispos e representantes da igreja católica na República Dominicana, que expressou o seu respaldo a favor do não reconhecimento da nacionalidade dominicana aos filhos de haitianos nascidos naquele país, contrário a Declaração dos Direitos Humanos.

Para deixar um pouquinho de interrogação quanto à comida haitiana, eu tive a sensação de saborear imaginariamente o “Griyo ak Banan”, que é uma espécie de carne de porco frito, com banana da terra recheada e decorada com repolho e pimenta. Uma comida típica, vendida dentro dos ônibus que deixa qualquer um ficar com água na boca, e ainda tem outras como o “Lalo…”, veja no livro, por favor.
Esse livro vai dar o que falar.

(*) Hermélio Silva é escritor e Membro Fundador da Academia Rondonopolitana de Letras – ARL, cadeira nº 06.

** Adly Gaby – Professor Gabriel – Haitinao naturalizado brasileiro. É jornalista, formado pelo Instituto Dominicano de Periodista (IDP), da América Central, professor de história, com formação pedagógica pela faculdade Fabras em parceria técnica científica com a Faculdade Ideal de Brasília.

1 COMENTÁRIO

  1. Muito bom! Trabalho em uma fundação na cidade de Campinas -SP e nos últimos anos tive e tenho muitos alunos haitianos. Gostaria de ter acesso ao livro, como conseguirei alguns exemplares??

    Bon Bagay!!!

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