(*) Emerson Arruda

A jornada de um novo ano sempre é marcada por expectativas, revisitações e uma série de planejamentos que são estabelecidos como possibilidades e ritos de iniciação simbólica. Isto nos remete a diversas esferas que compõem e que estruturam a vida humana e as experiências sociais, isto é, o tipo de relação que queremos conjugar com a nossa família, o estado, a religião, a cultura, a moralidade e, pontualmente, com o campo político.

Essas áreas possuem singularidade e complexidades hermenêuticas importantes exigindo de cada pessoa uma leitura de teor racional, contrária a todo tipo de passionalidade que forja indivíduos alienados, permitindo que estes percam o vigor de uma personalidade consciente e estejam caminhando por uma coletividade inconsciente, que é incapaz de observar o mundo com senso crítico e bom senso.

Quanto à esfera política, Maquiavel compreendeu no século XVI que a natureza humana era atravessada pela imprevisibilidade, inconstância e pela busca contínua dos seus próprios interesses, e que, portanto, no exercício de sua governabilidade, o príncipe deveria ficar atento a estes aspectos, considerando o fato de que o ser humano, mesmo revelando traços virtuosos não é tão bom quanto imaginamos; ele carece de inspiração poética para crescer como indivíduo numa conjugação política de nação.

Neste sentido, a reflexão maquiavélica inaugurou ao seu tempo aquilo que foi denominado como realismo político, ou seja, no exercício do poder deve-se considerar o paradigma da realidade cultural, e não apenas a lógica de um idealismo filosófico clássico, e principalmente, cristão, posto que, a realidade histórica e nossa relação com as estruturas de poder também evidenciam quem nós somos e como agimos.

Segundo a percepção filosófica de Maquiavel era necessário que de início houvesse o estabelecimento do Absolutismo, até que acontecesse a implantação dos ideais do República, posto que em sua época, a Península Itálica era fragmentada em reinos, ducados e cantões e não em um Estado nacional forte; ele via na República, a possibilidade de uma nova conjugação política.

É importante afirmar que existem inúmeras percepções e escolas filosóficas que estudam a filosofia maquiaveliana apresentando-nos interpretações possíveis quanto a produção deste autor, todavia, no mínimo há um convite de análise que devemos estar atentos que envolve três aspectos: ler com sensibilidade o mundo, problematizar a lógica racional de nossas crenças e analisar com moderação a conjugação moral dos nossos ideais políticos.
Ler fenômenos e acontecimentos exige uma atitude contemplativa cuja racionalidade deve nascer da imbricação entre a contemplatividade tipicamente teo-filosófica e a observação empírica do universo científico, campos aparentemente apostos, entretanto, ávidos pela procura da verdade. Todos os dias, precisamos ler o mundo, permitindo que o nosso exercício hermenêutico seja capaz de enxergar a motivação e os resultados reais que perfazem a conduta, o discurso, a prática e o ideal de sociedade de ser uma sociedade livre ou uma aglomeração de pessoas que impõe suas crenças, não permitindo a construção do contraditório.

Isso exige a coragem teórica, religiosa, e até mesmo, popular, de fazer uma avaliação justa e rigorosa acerca de nossas crenças, averiguando a logicidade delas, o horizonte de expectativas e o tipo de liberdade que elas propõem. Por vezes, estamos tão adaptados, trinados e obcecados a ver o mundo de acordo com um modelo ou uma localização teórica e ideológica que perdemos a capacidade de entender que tais paradigmas são eminentemente frutos de alguma tradição, que por sua vez, pode ter equívocos, imperfeições e limitação.

Além disto, poucas vezes, efetivamos um exercício intelectual de ação e consequência moral no que refere aos nossos ideais políticos que são adotados como verdade no processo de organização política, social, econômica e educacional da vida humana. A ausência dessa reflexão ética permite e alimenta a existência de cosmovisões, que na pretensão de libertar pessoas e construir uma sociedade democrática, aprisionam aqueles que possuem uma lógica moral distinta, e isto pode ser visto historicamente nos regimes totalitários de direita e de esquerda. Quais são os resultados morais dos meus ideais políticos? Liberdade, perseguição? Ou uma espécie de opressão supostamente fraterna que deslegitima o outro, valorizando apenas a lógica dos seus pares?

Em Maquiavel, encontramos um caminho ou simplesmente, a possibilidade de fazer uma análise crítica da natureza humana, dos nossos discursos, crenças, verificando se somos pautados pelo bem, pela moderação, por escolhas sábias, pela prática de virtudes, pela valorização da razão, dos sentimentos, pelo cultivo do amor, da amizade, pela liberdade, individualidade, pela felicidade e convivência, realmente, fraternas.

(*) Emerson Arruda é teólogo, filósofo, pedagogo e historiador, mestre em Educação e doutor em História pela UFMT, pós-doutor em Educação, Arte e História da Cultura e doutorando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie, professor da rede privada de ensino e pastor da Igreja Presbiteriana Luz e Vida no Bairro Jardim Rondônia, Rondonópolis/ MT.

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