(*) Fabio Angeoletto

Desde 2018, cientistas veiculados à linha de pesquisa em geotecnologias aplicadas à gestão e análise ambiental do Mestrado em Geografia da UFR e cientistas da Universidade de Reading (Inglaterra) vem desenvolvendo pesquisas conjuntas sobre ecologia das cidades. Essa parceria têm resultado em estudos com uma grande aplicabilidade na conservação da biodiversidade urbana.

Recentemente nós publicamos um artigo científico na revista “Animals”, intitulado “Map-a-mole: greenspace area influences the presence and abundance of the European mole ‘Talpa europaea’ in urban habitats” (em português: “Mapeie-uma-toupeira: a área dos espaços verdes influencia a presença e abundância da toupeira europeia ‘Talpa europaea’ em habitats urbanos”). O artigo é assinado por Mark Fellowes, Kojo Acquaah-Harrison, Elise Rocha, Tara Pirie e Rebecca L. Thomas, da Universidade de Reading, e por Fabio Angeoletto, Jeater Santos e Deleon Leandro, da UFR. Ele está disponível, gratuitamente, no website da revista.

A urbanização em geral diminui a riqueza de espécies para a maioria das comunidades bióticas. No entanto, essa afirmação precisa ser matizada. Uma exceção notável a esse padrão é a riqueza de espécies vegetais em ecossistemas urbanos, que geralmente é alta. Da mesma forma, a biomassa de pássaros e artrópodes é frequentemente maior nas cidades do que nas zonas rurais. Por outro lado, poucas espécies de mamíferos conseguiram se estabelecer com sucesso em ecossistemas urbanos.

As toupeiras são uma espécie de mamífero surpreendentemente pouco pesquisada em ambientes urbanos, dado o quão comum ela é na Europa. Nosso estudo, realizado na cidade inglesa de Reading, foi o primeiro a delimitar a presença e abundância da toupeira europeia em um ecossistema urbano. Descobrimos que as toupeiras são relativamente comuns nos espaços verdes urbanos, mas sua presença é determinada pela área desses espaços. As manchas de vegetação devem ter ao menos 10 hectares, para viabilizar a sobrevivência de populações de toupeiras.

Surpreendentemente, também descobrimos que há mais desses mamíferos em áreas verdes com entornos mais urbanizados. Examinando esses locais, especulamos que muito provavelmente por serem áreas com alagamentos frequentes, eles têm uma menor densidade de superfícies construídas e também menos toupeiras. Elas evitam cavar suas tocas nesses bosques, pelo risco óbvio de afogamento.

As toupeiras contribuem para a fertilidade do solo e devem ser consideradas no planejamento ambiental das cidades europeias. Com a devastação ecológica em escala mundial, as cidades devem ser planejadas para atuarem como reservas de biodiversidade. As urbes podem ser o lar de muitas espécies, mas o suporte à diversidade biológica não é automático: ele depende de nós, cidadãos, cientistas e gestores públicos.

(*) Fabio Angeoletto é professor do Mestrado em Geografia da UFR

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