(*) Antonio Gabriel

A cultura – o entretenimento, consumismo, as artes – não parecem ser o tipo de coisa capaz de aprisionar as pessoas. Mas a cultura popular molda o gosto dos povos, delimita o escopo das atividades e dos desejos humanos. Nossa cultura de consumo pode até nos oferecer opções, pode até nos dar a sensação de que temos liberdade de escolha, mas essa liberdade se torna lamentavelmente escassa quando todos recebem as mesmas opções limitadas. Vivemos em um sistema que mercantiliza a beleza, uniformiza os gostos individuais. Mas olhando por um lado psicológico, esta mentalidade não é um impulso social natural, mas uma grande performance orquestrada por um mestre com ares sacerdotais.

Quietude: a única coisa que a manada não consegue tolerar. O silêncio, o som de si mesmo, permite o pensamento – até mesmo carece dele. Penso que as ovelhas que formam a manada podem desistir da performance assim que desejarem, mas o apelo teatral da cultura, somado aos imperativos do capitalismo, torna a atração quase irresistível. Se parassem para raciocinar por um segundo, toda a performance cairia por terra e só lhes restaria o pânico. Quem não aprendeu a apreciar o silêncio, não suporta-o nem por um segundo.

Aprofundando mais em tal questão, que ideal de sociabilidade regia a cidade oriunda do contrato social? Quando Rousseau descreve sua cidade, vai ficando claro que, para ele, a sociabilidade perfeita exige do indivíduo nada mais, nada menos do que o “esquecimento de si”, quer dizer, a supressão pura e simples de sua própria individualidade. Que problema Rousseau pretendia resolver no contrato social? Talvez encontrar uma forma de associação que defenda e proteja com toda a força comum a pessoa e os bens de cada associado, e pela qual cada um, unindo-se a todos, entretanto só obedeça a si mesmo, e permaneça tão livre quanto antes. “Devo ao todo social uma completa obediência, mas obedeço a ele não obedeço senão a mim mesmo.”

Que tipo de relação deve existir entre indivíduo e a sociedade para permitir tal resultado? Será que a única possibilidade seria que cada um não seja de fato levado em consideração e anule-se diante da associação? De alguma forma, minha particularidade deve desaparecer diante desse todo social, para que obedecer a ele seja equivalente a obedecer a mim mesmo. É minha individualidade que deve desaparecer para que a idade se torne efetiva?
Em outros termos, para que o sistema seja possível é necessário que o interesse privado seja sempre idêntico ao interesse geral, é preciso que a vontade particular seja sempre idêntica a vontade geral: apenas sob essa condição aquilo que a sociedade quer não é diferente do que eu quero, apenas assim a finalidade do sistema e a finalidade do indivíduo batem. É aí que mora o cerne da alienação.

(*) Antonio Gabriel Ternero é graduando em Geografia, pesquisador na área de epistemologia e bolsista de iniciação científica

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