(*) Luís Otávio

A inflação medida pelo IPCA já ultrapassou dois dígitos e tende a se manter em níveis elevados. As causas são os efeitos combinados dos preços internacionais do petróleo e das commodities agrícolas e minerais, a depreciação do Real e os efeitos da crise hídrica.

Contudo, enquanto internacionalmente, a pressão inflacionária dos índices ao consumidor dos países da OCDE se encontra em média em torno de 5%, a inflação brasileira já ultrapassou 10%. Entre os vizinhos da América do Sul, a inflação brasileira só está menor do que a da Venezuela e da Argentina. Esse desempenho sofrível não é por acaso, reside na política monetária seguida pelas autoridades econômicas.

O raciocínio da necessidade de “elevar a Selic o quanto for necessário” do Bacen e Farialimers (o sistema financeiro), pressupõe que o controle da inflação se daria através da apreciação cambial. Uma Selic mais alta aumenta a atratividade das operações de carry trade que são investimentos externos que buscam ganhos oriundos do diferencial da taxa de juros internos versus externos. A entrada de dólares, atraídos pela valoração da taxa de juros dos títulos brasileiros, faria o Real se apreciar. A segunda hipótese dessa estratégia é a de que a restrição do crédito, em virtude dos juros em elevação, reduziria a demanda agregada, em consumo e investimento produtivo, e, assim, impediria que os preços de bens e serviços continuassem em elevação. As duas pressuposições estão equivocadas!

Na primeira hipótese, a intervenção do Bacen mais ativa, vendendo swaps cambiais em um cronograma estável de oferta, seria mais producente. Cabe ressaltar que a política monetária dos EUA irá se tornar mais restritiva em breve, em virtude da redução dos estímulos monetários iniciados com a crise da pandemia pelo FED (Banco Central dos EUA). Isso tende a elevar a taxa de juros internacional e reduzir os efeitos do incremento da Selic para a atração de dólares de investimentos estrangeiros, além de tornar mais custosa a estratégia de apreciação do Real, mediante a elevação da Selic.

Na segunda hipótese, a demanda agregada está nocauteada, e os níveis de consumo e investimento produtivo já estão contraídos em excesso. Mais restrição monetária poderá gerar uma recessão econômica no pós-pandemia, pois a inflação crescente não é decorrente de um excesso de demanda. O rendimento médio nominal dos brasileiros está no menor patamar desde 2017, e em termos da renda per capita, encontra-se no nível de 2010. Portanto, a estratégia alternativa de gestão de preços administrados (combustíveis e energia), com regras claras intertemporais, seria mais eficaz e com menores custos sociais para reduzir a pressão inflacionária no curto prazo. No caso da energia elétrica, por causa da crise hídrica, o racionamento seletivo para certas atividades e horários tenderia a ter efeitos sociais superiores do que a elevação exorbitante das tarifas que impactam muito os custos de produção que ocasionam, por sua vez, efeitos inflacionários posteriores.

Adicionalmente, a elevação dos custos com energia possui um efeito prejudicial maior para as camadas mais pobres da população. Finalmente, o prognóstico institucional também não é alvissareiro. Por causa das eleições, provavelmente, o ambiente de incertezas políticas no próximo ano irá crescer, o que tende a reforçar a depreciação cambial.
Em síntese, a política econômica e as conjunturas internacional e política estão todas reforçando o ímpeto inflacionário que tende a se alastrar por 2022. Portanto, tudo indica que a tarefa de colocar a casa em ordem estará nas mãos do próximo governo.

(*) Luís Otávio Bau Macedo, professor associado do curso de Economia da UFR e coordenador do programa de pós-graduação em Gestão e Tecnologia Ambiental UFR – E-mail: [email protected]

1 COMENTÁRIO

  1. Apreciação lógica e real. Parabéns professor. Ao que parece o Banco Central ao invés de tirar da cartola um coelho tira um gambá, de modo que alguns economistas do BC deveriam voltar a estudar economia.

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