(*) Paulo Eduardo

Escutar nos dias de hoje tem sido um desafio e necessário, num mundo cheio de adversidades e transições. Já se deparou em uma situação que estava conversando com uma pessoa, até mesmo próxima, ou com algum profissional da área da saúde em que não se sentiu acolhido, ouvido? Provável que muitos de nós em algum momento já passamos por isso.

Um exemplo claro de adversidade no qual a escuta tornou-se ainda mais necessária é a Pandemia. Foram vários períodos de distanciamento físico e que tivemos que nos adaptar e aprender a escutar o próximo e a nós mesmos, principalmente nos momentos de angústia que pareciam intermináveis. Talvez, um dos exercícios mais importantes nesse sentido é a própria escuta, que diz respeito a olhar para nós e refletirmos sobre nosso “barulho interior”, o silêncio e o tempo para processar.

Abordar sobre escuta parece algo tão óbvio, mas que é pouco praticada por grande parte das pessoas. E quais os motivos então que deixamos de exercer essa prática tão fundamental? Bom, o simples fato de vivermos num mundo globalizado já é um fator predominante. Vivemos conectados em grande parte do tempo nas redes sociais e esquecemos muitas vezes de nos conectarmos com quem está ao nosso redor. Além disso, vivemos acelerados com os afazeres e obrigações da semana que a escuta de si e do outro são deixadas de lado.

Dentro do contexto psicológico a escuta é algo que precisa estar muito presente, pois proporciona à pessoa acolhimento, atenção e sentimento de pertença frente as suas experiências de vida. Encontramos o termo “escuta ativa” associada à psicoterapia e à Psicologia com base em Carl Rogers, um psicólogo americano que priorizava muito isso em seus trabalhos. Trata-se de escutar o outro para compreender o que está a dizer, evitando o quanto possível julgar. Para Rogers, é fundamental abrir-se para esse tipo de escuta, pois enriquece e torna mais sensível quem escuta, assim como promove a transformação do outro, isto é, de quem está sendo escutado.
É perceptível que tem se perdido a noção de que precisamos uns dos outros (não dependente emocionalmente) e que os laços que nos unem de um ponto a outro do universo se fortalecem pela acolhida. É imprescindível escutar as pessoas. Não o que dizem dela ou o que imaginamos a seu respeito, mas a escutar com o coração aberto, desarmado.

Seja a escuta de si como a do outro (relacionamentos, organizações, entre outras), vai muito além do ouvir: inclui o olhar, a observação atenta, o sentir o corpo, sensações e sentimentos e reflexão. Além disso, requer atitude de entrega, atenção e não julgamento, bem como reconhecer quando é necessário dar limite à escuta.

Pensar acerca da figura do outro não deveria ser algo tão desafiador. Uma comunicação afetiva e efetiva requer a disposição para buscar entender e valorizar o verdadeiro significado contido no discurso do outro. Por isso, escutar vem antes do falar, escutar nos abre para relações mais consistentes. Já dizia Alberto Caeiro: “não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Por isso tem-se a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.

Vale ressaltar que o que ouvimos traz uma particularidade do outro, não é apenas um mero falar. Saber ouvir é fundamental para fortalecer conexões e ainda melhorar a relação com quem nos cerca, além de ser uma grande oportunidade de crescimento pessoal.

(*) Paulo Eduardo Soares Santana, Graduado em Psicologia, Pós-Graduado em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, Pós-Graduado em Psicologia Humanista – Abordagem Centrada na Pessoa. Psicólogo Clínico CRP 18/03454

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