(*) Édson Ceretta

“Faz tempo que, para pensar sobre Deus, não leio os teólogos, leio os poetas”, sustentava o escritor Rubem Braga.

Não é só se permitir que a cultura invada seu mundo. Não se trata tão somente de conhecer novas histórias. Ou ainda se deixar levar por um instante de aparente lazer ou prazer. O que parece ser o início boêmio, no curta-metragem “Esse aqui não!”, é, na verdade, um mergulho na cultura, na literatura e na filosofia, embrenhando-se, até, nos campos científico e do conhecimento geral.
Como bem irradiou no filme o notívago poeta, “O tempo tem tempo”. A grandeza do versejador se refletiu em sua humildade e mansidão. E o tempo o galardoou, despojando-se momentaneamente de seu relógio cronológico para nutrir a alma desse vate com poesia e filosofia, oportunizando-lhe as mais profundas discussões dos sentimentos nobres do ser humano.

Mais que vê-lo com os olhos, assistir ao curta, assinado por Hermélio Silva, é adentrar também na essência do autor. É viajar pelas ações de cada personagem e, sobretudo, inundar-se das crônicas poéticas e prosaicas da alma humana, em vasta verve. É observar cada pormenor, sinal ou janela aberta. Falas, gestos, olhares… há sentido em tudo.

No decorrer dessa produção cinematográfica, nascida no último ano do século XX, o espectador irá descortinar uma incrível jornada espiritual, mística e filosófica, na qual o poeta corpóreo encontra o poeta imaterial. O maior de todos. E Ele, somente Ele irá menear intimamente o espírito do literato, abrindo caminhos para meditar, mediar e altercar as temáticas humanas. É o ensejo de uma preleção não só emblemática, mas, acima de tudo, opípara e de uma efusiva reflexão.

O filme reproduz nostalgia e filosofia, versando sobre valores inestimáveis. Citações bíblicas, parábolas, apocalipse, poço da juventude, passando por astronomia e astrologia, com a Era de Peixes, OVNIs, chupa-cabras, clones e disquetes. E o que dizer do “teleporte”? Enfim… até o “Maluco Beleza” teve um lugar em cena.

Ouso dizer que o curta também carrega em seu bojo uma admirável estofa lírica. Creio que serão necessários olhos de águia para enxergar longe, além do horizonte, na imensa massa imaginativa, encontrando de perto o ponto certo da estória, exatamente como ela é.
Com mais de 20 anos no tempo, o filme “Esse aqui não!” continua vivo e atual, tangenciando e bamboleando o saber e a alma humana.

(*) Édson Ceretta é funcionário público federal e escritor, autor do livro “À sombra do 13”

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui