12/10/2021 – Nº 641 – Ano 15

Hoje comemoramos o dia das crianças. Uma data relevante num país como o nosso em que ainda não conseguimos assegurar as condições mínimas de educação, saúde e alimentação para todos os que nascem em nosso solo. Imagina as expectativas profissionais.
Assim, de uma certa idade em diante uma das perguntas mais frequentes dirigida aos pequeninos é ‘o que você vai querer ser quando crescer’. Fazendo com que eventualmente reflitam sobre seus sonhos e ambições, dentro dos evidentes limites que cada ser nessa tenra idade é capaz de imaginar.

Mais adiante, para aquelas que possuem condições financeiras ou obtém algum auxílio público, lança-se mão de diversas ferramentas para prever o seu futuro com maior assertividade, dentre eles os testes vocacionais, tentando descobrir suas habilidades naturais para a sua vida profissional.
Imagina como seria legal se todos pudessem se dedicar em suas profissões apenas ao que realmente tivessem habilidade inata. Não haveria ser infeliz nesse mundo em nenhum ambiente de trabalho. Sabemos, no entanto, que isso é utopia e que a maioria de nós precisa aprender a lidar com aquilo que surge e não apenas com o que tem habilidade.

Nesse momento, um dilema se forma: a habilidade nata nem sempre está vinculada a paixão e vice-versa. Muitas vezes a distância entre uma e outra é enorme, outras vezes é próxima. A primeira não é garantia de sucesso e a segunda também não é de fracasso. Aparentemente não há regra a se estabelecer para garantir o sucesso de quem quer que seja. Até porque nossas habilidades também vão migrando de acordo com nossas necessidades.

Observando muitos profissionais de sucesso percebo que o grande diferencial não está na habilidade inata e sim na paixão, na dedicação e no gosto pelo treino. Daí surge a grande questão: é mais importante descobrir o talento natural ou ensinar a importância do afinco e da tenacidade?
Tenho muitos desafios não vencidos. Mas muitos dos que me conhecem hoje se espantam quando exponho meus medos de criança em relação a público e gente: era muito envergonhado. Tive que aprender a administrar e encontrar prazer nesse contato. Enfim, hoje me divirto, mas não sem ter um frio na barriga.

Acho que sempre tive mais coragem e intempestividade do que habilidades naturais. Foram decisivos a dedicação e o gosto pelo treino, para só então me tornar capaz e demandado a dar aulas, treinamentos e palestras. Não creio que tivesse habilidade nata, mas treinei o suficiente para me sentir seguro e desde então brincar com as situações.

Aprendi a me preparar (talvez até pelo próprio medo) e que treinar intensamente era o único caminho para me tornar minimamente competente. Lembro-me quando minha mãe me fazia repetir muitas vezes as falas do teatro da igreja ou da escola, sem erro. Com carinho, fazia entender que se errasse qualquer detalhe, deveria fazer de novo.
Isso me foi útil também no início da vida profissional. Muitas vezes fiquei esgotado ao refazer junto com meu irmão, madrugada a dentro, dezenas de planilhas de topografia, utilizando geometria plana. Tudo à mão (não havia computador na época), no início de minha carreira profissional aos 18 anos, até ter de memória boa parte das fórmulas e suas aplicações. Mas não creio que tenha nascido ‘bom em matemática’.

Por outro lado, a prepotência normalmente cobra o seu custo e por isso também já sofri reveses em alguns momentos ao acreditar que com minhas habilidades naturais era capaz de superar os desafios e não precisava me preparar com esmero.

Lembrei disso essa semana quando vi um post numa rede social sobre o cantor e guitarrista Bruce Springsteen ganhador de nada mais que vinte Grammys, quatro American Music Awards e um Oscar, mas que não tinha qualquer talento natural para a guitarra quando jovem.
Segundo a história, chegou a desistir depois das primeiras aulas, sem conseguir tocar uma única nota, além de também não ter talento para cantar, já que inúmeros colegas de bandas e seu primeiro empresário simplesmente desistiram dele. Mas ao que tudo indica ele tinha paixão e com ela veio a dedicação para desenvolver habilidade, perícia e destreza em patamares inimaginados no início.

Creio que o ser humano é capaz de aprender quase tudo se tornando excelente, tendo inclusive prazer. Mas para isso dedicação e treino são fundamentais. Talvez seja isso que devêssemos ensinar para nossas crianças. E é claro, se elas ainda tiverem suas habilidades naturais a favor, serão craques com certeza.
Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É empreendedor, Diretor da GoJob Brasil, Business Advisor, Hunter, Mentor e Articulista – [email protected] – www.linkedin.com/in/elerihamer – Originalmente publicado no Jornal A Tribuna – www.atribunamt.com.br

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