Esta fotografia dos arquivos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos reporta a um Bem Histórico e Cultural de relevância para a cidade de Rondonópolis e região. Trata-se da Ponte sobre o Rio Vermelho, chamado de Rio Poguba pelos Bóe-Bororo. Observem nesta fotografia que a ponte é de alvenaria e que as margens do Rio Vermelho ainda não foram desmatadas, a estrada começava a ser feita.

Na ponte há um carro parado, uma pessoa observa o rio, outra conversa com a pessoa a cavalo, uma menina segue na frente desta e atrás vem um animal sendo puxado, uma perna indica que há mais pessoas atravessando a Ponte. Quem seriam estas pessoas?

O Rio Vermelho é fonte de inspiração para músicas e poesias. O rio é o “gigante” que, no sentido literal, alimentou e alimenta a população de muitas maneiras por mais de 10.000 anos atrás conforme os estudos arqueológicos já constataram. Pelos rios Vermelho, Jurigue, Tadarimana, Arareau e outros vivem o Povo Boé-Bororo, circulando em canoas, pescando, construindo as aldeias e observando a chegada dos estranhos; inclusive as lanchas a vapor para as quais vendiam lenha, os barcos menores e a balsa sustentada por um cabo de aço. Quantas benesses e perigos significavam a travessia do Rio Vermelho em tempo de cheias!

A “Ponte do Rio Vermelho” como se tornou conhecida foi construída em alvenaria e inaugurada em 1953, após a sua versão em madeira ter sido levada pela enchente. Sobre a primeira, construída em 1942, sabemos que somente “depois de um ano a ponte pôde ser concluída, com seu madeiramento reforçado, os quais resistiram a passagens dos pesados veículos carregados de mercadorias que seguiam para outras partes.” (CURY, 1973).

Na década de 1980, a ponte de alvenaria foi reforçada com estrutura de ferro pelo Exército. Mas pergunta-se: E na atualidade, quais são as suas condições? Destaca-se que historicamente a “Ponte do Rio Vermelho” significou um avanço logístico para a cidade, região e para o Estado de Mato Grosso, visto que após sua conclusão os viajantes que chegavam à “Fazenda Jurigue” e mais à frente, à sede da “Fazenda Velha”, e, não precisavam mais aguardar pela travessia da balsa pelo Porto 1º de Fevereiro, pois sua localização privilegiada viabilizou o acesso ao planalto central e ao sul do País, por meio das rodovias BR-364/BR-163” que foram construídas no alto do “Morro Azul”, às “costas” para a casa sede da Fazenda Velha que data do início do século XX.

Impossível, também, falar da importância da “Ponte do Rio Vermelho” sem mencionar além do Povo Bororo, os moradores das fazendas citadas e o “Bolicho e Pensão do Cury” ou seja, o atual Casario. Isso porque sua proximidade com o Rio fez daquela sequência de casinhas localizadas no “Porto 1º de Fevereiro” um local de abrigo e descanso aos viajantes ou mesmo, possibilitou que se tornasse o lar dos migrantes que chegavam em Rondonópolis.

Devido a estes e outros motivos, o Casario foi elevado à categoria de Patrimônio Histórico e Cultural do Município de Rondonópolis, e, representa um dos maiores núcleos culturais da cidade, com comércios ativos e diversos tipos de eventos que garantem a participação popular na apreciação desse local tão importante.

Porém, nem todos os espaços históricos da cidade são reconhecidos pela Prefeitura, como é o caso da Ponte construída sobre o Rio Vermelho. Na atualidade, a sua estrutura corre sérios riscos em razão do trânsito de caminhões, maquinários e carros de passeio, além da própria ação do tempo. Por esse motivo, os cidadãos e profissionais comprometidos com a conservação dos Bens Culturais da cidade recomendam e lutam para que ela seja Tombada como Patrimônio Histórico e Cultural do Município; bem como, que seja recuperada.

Embora existam, de fato, essas pessoas comprometidas a nível profissional para esse propósito, é necessário lembrar que essa responsabilidade não cabe somente a eles e elas. Cabe a todos e todas nós, moradores e moradoras da cidade. A memória de uma cidade é construída e mantida coletivamente, sendo que cada indivíduo tem sua própria história para contar, e que cada uma delas é preciosa e entrelaça-se com outras tantas histórias. O apelo aqui é que a população se comprometa com essa causa, e os caminhos para isso são muitos: mobilizar-se na internet através de registros fotográficos e legendas que expressem a importância dos patrimônios históricos da cidade; preservar os locais públicos mantendo-os limpos e fazendo uso deles sem degradá-los; frequentar os locais históricos da cidade, como o Casario e o Museu Rosa Bororo; cobrar medidas públicas, etc.

Rondonópolis nos presenteia de inúmeras formas, preservar sua memória é – além de uma responsabilidade social – uma forma de retribuir tamanha generosidade. No decorrer dos anos, muitos estudiosos debruçaram-se sobre a questão da cultura e identidade em discussões que não cabem aqui, mas, muitas também são as respostas. O que se pode concordar é que não há um único elemento que define uma pessoa como brasileira, ou mato-grossense, ou rondonopolitana. Há um mosaico de interesses que convergem para o fenômeno da cultura, dentre eles, saberes que atravessam e são atravessados pelas vivências coletivas e individuais ao longo da História.

Alguns desses saberes convergem-se e materializam-se. Podem ser condensadas no modo específico, a saber: como as mulheres e homens Bororo fazem suas esteiras? Os trançados das moradias? Os seus Parikos (cocares)? E os imigrantes e migrantes, inclusive os japoneses, que legado mantêm em Rondonópolis? Como festejam a colheita e praticam esportes? E os demais, procedentes de outras partes do Brasil, tais como os goianos, baianos, paulistas, sulistas, etc… como constituíram suas vidas neste território?

De todo modo, cada cultura é única e, ao mesmo tempo, plural; pois desconhece fronteiras, é flexível para abranger outras vivências e saberes, criando algo totalmente novo. É nessa rede de complexos entrelaçamentos que muitos profissionais e cidadãos que vivem em Rondonópolis e atuam nas diversas áreas se unem em prol da manutenção da memória e pela Salvaguarda da “Ponte do Rio Vermelho” exigindo do poder público sua preservação.

(*) Beatriz Dota Fernandes, estudante de Licenciatura em História na Universidade Federal de Rondonópolis-UFR

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