(*) by Jerry T. Mill

I cannot write in English, because of the treacherous spelling*
Albert Einstein (1879-1955), físico e matemático alemão

À primeira vista, a afirmação feita no título deste texto pode soar incoerente ou até mesmo absurda, com pouquíssimo poder de convencimento, eu sei. Afinal, como não perceber o gritante ‘chapeuzinho’ na letra ‘e’ da palavra em questão, não é mesmo? Ocorre, dear reader, que o ‘inglês’ a que eu me refiro é o idioma bretão, aquele que, surgido no século V, traz consigo certas características que merecem, no mínimo, a nossa atenção dobrada, seja na sua versão oral ou escrita.

Língua de origem germânica, é fato que o inglês não tem acentuação, enquanto que o português (idioma de origem românica) faz uso de sinais gráficos (apenas nas vogais) para marcar alterações na entonação e distinguir a pronúncia de uma palavra de outra, como no substantivo ‘pronúncia’ e no verbo ‘pronuncia’ (indicando a terceira pessoa do singular no tempo presente do modo indicativo), por exemplo. No entanto, embora pertençam à mesma “família”, a maioria das palavras do português de origem greco-latina costuma ter apenas um acento, mas há vocábulos em francês que podem ter até três acentos (caso de ‘délétère’), ao passo que línguas como o tcheco e o polonês (de origem eslava) usam acentuação até em consoantes!

Agora, pense: se para nós, brasileiros, o inglês tem as suas particularidades e dificuldades, o mesmo pode ser dito quando estrangeiros decidem aprender o nosso idioma. Muitas vezes com a necessidade adicional de saber usar adequadamente os sinais gráficos: acento agudo, acento grave (ou crase), acento circunflexo e til – conhecidos, em inglês, como acute, grave, circumflex e tilde. Afinal, são justamente eles que nos ajudam a saber se uma sílaba é átona ou tônica e uma palavra é oxítona, paroxítona, proparoxítona ou tem tom nasal.

Como essa questão da acentuação não ocorre na língua inglesa (a não ser que a palavra seja de origem estrangeira), é sempre interessante notar um quê de surpresa e êxtase no semblante daqueles que se desafiam a aprender inglês no Brasil toda vez que um fato novo (ou inesperado) está ao alcance dos seus olhos e dos seus ouvidos, mormente no ambiente (presencial ou remoto) da sala de aula. Eis algo que eu posso dizer pela força da experiência que tenho acumulado em quase três décadas em que eu leciono o idioma bretão, que às vezes é tão castigado por nossos falantes e aprendizes quanto a nossa própria língua no que se refere a aquilo que é esperado quando a coletividade se expressa através dele ao falar e principalmente ao escrever.

Ressaltando, então: fruto da fusão de várias línguas e dialetos nesses seus 16 séculos de existência, o inglês, por iniciativa dos seus guardiães e estudiosos, desde o início, preferiu não adotar o uso de qualquer sinal gráfico nos seus vocábulos, muito provavelmente para manter suas raízes e facilitar a comunicação, especialmente na sua forma escrita. Ainda assim, ele sofreu influência do grego, do latim e tantos outros idiomas século após século, tendo importado e adotado inúmeras palavras greco-latinas e francesas, com ou sem acento, como ‘epoch’, ‘menu’ e ‘café’, par exemple.

Em suma, historicamente, nunca foram usados acentos em inglês. Seus falantes e aprendizes ainda hoje devem deduzir a tonicidade, timbre ou nasalidade das palavras utilizadas no contexto com base no conhecimento previamente adquirido, seja através de aspectos culturais, etimológicos ou notadamente gramaticais. Não que isso seja um mal na sua totalidade. Na verdade, o inglês tem muitas qualidades (que você deve se esforçar para descobrir quais são), caso ele seja comparado a outros idiomas. Se não fosse por isso, ele não teria se tornado a lingua franca dos dias atuais.
* Eu não consigo escrever em inglês, por causa da ortografia traiçoeira.

(*) JERRY T. MILL é presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro-fundador da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras) e associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui