(*) Hermélio Silva

Lá vou eu, completando a minha existência, evoluindo e aprendendo. Existindo, sobrevivendo, levando a vida devagar e sempre. Sempre, que não é para a eternidade, mas querendo buscá-la, diuturnamente. Caminhando num caminho feito de nuvens, e o engraçado é que o meu cajado de madeira, lixado e envernizado com muito cuidado, e com o cabo anatômico, e olha que não me lembro se foi feito sob medida para eu pegar com a minha mão direita, ou foi o próprio tempo que se encarregou de anatomizá-lo, ou a minha mão, que se adequou. Sim, não me esqueci de completar que ele, o cajado, não fura as nuvens, e nem eu caio delas.

Parecem nuvens mesmo, pois são macias como lã de ovelhas, tapetes felpudos, dou minhas passadas curtas, rítmicas e lentas, com a certeza de que não me deixam cair, de volta ao planeta azul.

Vou! Não tem retorno ou parada, é um ir contínuo, como o tempo. A direção é o sublime supremo, quiçá seja esse o endereço final, com o meu epitáfio escolhido, já vendo o morgue ao longe, mesmo com as cataratas dos olhos atrapalhando, porém, sentindo isso, nem preciso que as vistas alcancem o fim.

O vento traz um sussurro bom de ser ouvido. Uma paz toma conta de mim. Não sinto mais aquelas dores que doíam sem parar. Como se eu tivesse tomado uma dose extra dos meus medicamentos, no entanto, não me levaram à cama, para ressonar intermitentemente, até que um dia passassem os efeitos e, como sempre, as dores voltavam como se nada tivesse acontecido, e ainda, apareciam outras dores formando uma sinfonia de sintonia perfeita.

Tenho um monte de coisinhas, serviços e outras ações maiores para finalizar, não quero deixar para depois, só que não farei hoje o que se possa fazer amanhã. Não tenho pressa para terminar, quero terminar, mas afinal achei que a pressa é amiga da imperfeição. Fá-lo-ei, no meu tempo, se ele assim o permitir.

O tempo tem tempo, só não tem dó, entretanto o tempo sempre termina em pó. Uma estrofe do meu melhor poema, que pode ser o elogio da lápide. Nem precisa ser tumba, pode até ser cinzas, e que não seja levado pelo vento, mas pelo ribeirão ou até pelo rio.

Uma luz tênue, que me permite distinguir no horizonte, acho que é o sol aproximando. Sinto um calor gostoso e aconchegante, uma vontade de tirar uma soneca, de fazer a minha oração pessoal, de cerrar os olhos e cochilar. É o tempo se exaurindo. Com Deus ele chega, e que seja bem-vindo.

(*) Hermélio Silva é escritor e membro fundador da Academia Rondonopolitana de Letras, cadeira número 6

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