Fazenda Velha. Festa embaixo da figueira.. Fonte: Núcleo de Documentação Histórica Otávio Canavarros-NDHOC/HIS/ICHS/UFR. Procedência: Coleção Levanir Gomes

(*) Ivanildo Ferreira

“Uma rainha majestosa e linda que viveu nas terras de Rondon desconhecidas pelas gerações. Tão calma silenciosa e bela ainda sobrevive. Trata-se de uma linda árvore que foi por mim condecorada como “Árvore da História”. Uma figura esquecida pelo tempo e desconhecida, da qual a partir de agora, muitos zelarão para que ela sobreviva. Os filhos dessa geração a protegerão como a “Árvore dos Amores”. Centenas de vezes Marechal Rondon, com seus vários companheiros sentaram-se debaixo de suas pomposas sombras. Era um verdadeiro paraíso aquela fazenda velha, que os antepassados conheceram…” (CURY, Carmelita, 1973, p. 198).

Cinquenta anos separam a composição da obra histórica dos dias atuais. Dentre tantos assuntos, o da Fazenda Velha de Marechal Rondon foi carinhosamente tocado sob o signo da rainha majestosa, “Árvore da História” e, por fim, “Árvore dos Amores”. Ao final encarregou os filhos desta geração os cuidados com a vida e perpetuação da rainha calma e bela. É consabido que árvores não se defendem de golpes de machado, motosserras e herbicidas manejados por humanos. Não sei por qual meio caiu a árvore dos amores; a bela e silenciosa rainha que recepcionava viajantes, festeiros e moradores na frente da casa do Velho Marechal.

Nestes cinquenta anos não só caiu de importância a frondosa árvore que refrescava a alimária – nesta época seu tronco pouco servia para o amarrio dos cabrestos dada a espessura do tronco – foi sombra para as cento e cinquenta vacas das histórias do meu avô e inspiração para os jovens; mas caiu também a importância da própria casa de baldrames, esteios e barrotes, e todas suas instalações de apoio. Aos poucos virando ruínas os telhados, paredes, pisos e terreiros encapoeirados uma vez que seu aconchego e carinho não são mais desejados ou agradecidos pelo viajante ou familiar. Os antigos se foram e os filhos desta geração… ao que parece, encontraram outros locais de confraternizações ou lazer sem a árvore que outrora contava histórias pela sua simples presença e louvor à natureza. Também outros lugares de pic-nic surgiram e passaram ao longe dos currais e pátios vazios de vacas, peões, e da gritaria das crianças da escola e da família da casa grande nos domingos de folga, comida e causos cheios de ensinamentos de lições para a vida.

O terreiro da cozinha com suas mangueiras de sombra, além dos peões e dos jogos de maia, fazendeiros, comissários, políticos e empresários discutiam o futuro dos negócios da cidade que, aos dezoito anos de emancipação política, possuía muito pendor para monocultura com a nascente mecanização do cerrado; as concessionárias de tratores, a substituição dos arados pelas grades e o plantio por semeadeiras.
Pois bem! Os pequenos balneários cederam lugar aos clubes. Foram construídas rodovias, cemitério, indústrias… As árvores viraram empecilho ao desenvolvimento. O progresso chegou, a indústria cresceu e a cidade hoje está entre as mais prósperas do país. A árvore da história e dos amores, há muito está morta. Mas o sítio histórico de tantos e tantos homens e mulheres, pobres ou ricas, frustrados ou realizados, enfim continua. Insiste em testemunhar aqueles e aquelas que tenham um tempo para se dedicar ao lazer cultural, e neste, indagar – não os ‘oquês’, mas – os porquês da história, e ouvir da velha arvore in memoriam, suas histórias de realizações e fracassos comuns também na vida das pessoas.

(*) Ivanildo José Ferreira é professor aposentado da UFMT e advogado militante em Rondonópolis

1 COMENTÁRIO

  1. Belo texto. Texto literário/histórico de grande valor cultural, histórico, sentimental e, principalmente, amor às raízes e à natureza que já foi exuberante na outrora e hoje só lembranças. Teu texto me fez viajar no tempo de quando eu ainda era menino em outras paragens vivenciando semelhanças ao natural e cultural de um passado longínquo ao pós-modernismo instalado em todos os cantos e lugares antes exuberantes em causos e cantos entoados entre humanos e natureza. Grande abraço amigo Ivanildo!

    Aires José Pereira é prof. de Geografia na UFR e está coordenador.

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