20/07/2021 – Nº 629 – Ano 15

Semana passada tive o privilégio de visitar um Museu Egípcio que se autointitula possuir o maior acervo da América Latina. Uma exposição de réplicas de peças famosas da arte e cultura do Egito antigo, como O Escriba, A Múmia, O Sarcófago de Tutancámon e inúmeros objetos religiosos e de adorno, criadas pelo artista plástico egípcio Essam Elbattal.

Além da beleza natural das obras e das curiosidades instigantes da história egípcia, com mais de três milênios de civilização, em casos assim sempre procuro identificar pontos de aprendizagem temporal e os nexos que podemos criar com a nossa atualidade. A peça do Escriba foi uma das que me fez refletir sobre a nossa realidade e a evolução do mundo do trabalho.
Para quem não sabe o escriba profissional era aquele que dominava a escrita e por isso era uma figura importante, com grande destaque social, tanto nos aspectos civil, militar e religioso da administração do antigo Egito.
A sua relevância adicional é facilmente entendida dado que a ampla maioria da população egípcia não sabia ler e escrever. Logo, quando uma pessoa iletrada precisava redigir ou ler um documento via-se obrigado a pagar o serviço de um escriba.

Aprendi na visita que, por ofício, era alocado ainda para redigir as leis de sua região ou as normas de uma determinada religião, além de poder desempenhar as funções de contador, secretário, copista ou arquivista. Existia inclusive uma formação estruturada para essa finalidade, longa e rigorosa, em que o menino entrava na escola do templo com cerca de seis anos e saia por volta dos dezesseis.

Diante da nossa realidade do mundo moderno em que a taxa global de alfabetização se aproxima dos 85% a utilidade e a respectiva remuneração desse tipo de trabalho até pode parecer estranho para alguns ou mesmo antiquado, mas garanto que não é. Está muito próximo da nossa realidade e certamente vale algumas reflexões.

Apenas como um paralelo, diariamente novas funções e habilidades são criadas e desenvolvidas para atender as necessidades de pessoas e empresas. E outras tantas que simplesmente desaparecem ou são relegadas a excepcionalidades.

Lembro-me por exemplo, que no início da minha vida profissional, dominar a arte da datilografia era um grande diferencial. Era praticamente o escriba da época. Pagava-se para que alguém com habilidades de escrever à máquina transferisse para o papel as ideias e necessidades de outro.
Hoje, embora muita gente ainda faça trabalhos de digitação, formatação e elaboração de notas e relatórios, essa função de digitar o que se pensa está praticamente extinta ou ao menos mudou radicalmente de forma.
Talvez isso sirva de atenção sobre todas as nossas habilidades e competências que possuímos como profissionais. Tomar ciência de que nada é seguro e contínuo, mesmo que exista especificidade, alta demanda ou elevada barreira à entrada.

A qualquer tempo uma nova tecnologia ou uma demanda diferente do mercado coloca suas certezas morro abaixo. Por isso, construir habilidades e competências que as pessoas e a sociedade desejam ou sejam capazes de pagar sempre foram os grandes desafios.
Essas certamente são as grandes perguntas: o que você é capaz de fazer ou entregar e que os outros estejam dispostos ou necessitem pagar para você?

Que dor você tem competência para aplacar?
Talvez esteja na hora de nos colocarmos no lugar dos escribas e fazer a nossa parte para não sermos simplesmente substituídos pelo ambiente, para mantermo-nos importantes e atrativos sob os olhos do mercado.
Adicionalmente garanto que isso não é tarefa fácil. Requer muita atenção contínua ao ambiente, dedicação, insistência e muita ação.
Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É empreendedor, Diretor da GoJob Brasil, business advisor, mentor e articulista – [email protected] – www.linkedin.com/in/elerihamer – Originalmente publicado no Jornal A Tribuna – www.atribunamt.com.br

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