(*) Maike de Souza

Na escola, no trabalho, em casa, na rua, etc. Quem nunca foi assediado? Em tempos de pandemia, o assédio tomou conta das empresas públicas/privadas ou as pessoas apenas estão com coragem de denunciar? Como professor da escola pública, já vi muitas coisas acontecerem dentro dela. Professores chorando por carga excessiva, por conta de palavras mal dirigidas, amigos saindo de licença devido não suportarem tais exageros, seja por parte do sistema ou pela gestão escolar.

Certamente, para saber se realmente estamos passando por um assédio moral, precisamos entender o que significa isso. Dessa forma, pela lei do código penal 2.848/40 em seu artigo 136 caracteriza pena ao “Expor em perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade, guarda ou vigilância, para fim de educação, ensino, tratamento ou custódia, quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis, quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado, quer abusando de meios de correção ou disciplina”.

Por certo, o que vem à mente são os professores que ministram apenas uma aula por turma/série na semana das disciplinas de Arte, Sociologia, Filosofia, Inglês e Espanhol. Esses professores, acredito eu, são os mais afetados, diante dos pares, por uma carga de trabalho excessiva, aumentada ainda mais agora com essa pandemia, atendendo uma quantidade superior de estudantes, com maior quantidade de grupos de WhatsApp, produzindo mais planejamentos de aulas, roteiros de estudos, apostilas de ensino, tirando dúvidas de diversos estudantes pelas mídias digitais, lançando mais diários, organizando mais avaliações, mais notas para lançar no sistema, etc. São diversas as burocracias que um professor atende no cotidiano e, pasmem, temos trinta horas de trabalho por semana, dessas horas vinte são para ministrar aula em sala, sobrando apenas dez horas para trabalharmos essas questões citadas. Um detalhe que os não atuantes da escola desconhecem é que dessas dez horas ainda temos sete horas para reunião entre os pares, sobrando apenas três míseras horas para a produção desse volume de atividades que mencionei.

Diante desse exposto, fomos buscar ajuda junto ao sindicato dos professores para a luta da igualdade na grade curricular das escolas, onde todas as disciplinas teriam duas aulas mínimas por turma, o que pode ajudar a diminuir a carga de excessos dessas disciplinas mais afetadas. A resposta que obtivemos deles foram: “temos demandas maiores para atender” ou “cada escola tem autonomia para isso” e até mesmo “essa luta não é nossa”.

Como assim? Se o próprio sindicato dos professores, que deveria ter um olhar mais atento para isso, nos deixou de lado quem poderia ajudar então?
Mesmo assim a luta ainda continuou. Em virtude disso, como o sindicato disse que a escola tem autonomia para isso, fizemos um projeto para a escola onde atuo alterando a grade curricular das disciplinas e deixando uma equidade na distribuição delas, ou seja, cada disciplina teria um mínimo de duas aulas por turma. Apresentei o projeto de alteração a assessoria da Seduc e obtive a seguinte resposta: “(…) o que você propõe, são alterações grandes e impactam toda a estrutura organizacional e demais servidores”.

Espantem no detalhe “impactam os demais servidores”. Mas e os professores que estão bem impactados há tempos com a sobrecarga de serviço? Eles continuarão assim sofrendo, saindo de licença pela falta de saúde mental que acarreta essa imensa demanda de serviço?
Por fim, a pergunta que me vem é: será que um professor que ministra apenas uma hora por turma/série na semana em cada disciplina, sofre assédio moral?

(*) Maike Moreira de Souza é professor de Arte na rede Estadual; artista plástico; e formado em Artes Visuais.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here