Pouco mais de um ano depois da primeira morte na pandemia, Rondonópolis chega à triste marca de 800 vidas perdidas em decorrência da Covid-19. São muitas famílias enlutadas e muitos sonhos interrompidos. As vítimas eram pais, avós, irmãos, amigos. Para cada vida levada nesta pandemia, outras tantas sofrem pelas perdas.

Como uma forma de lembrar e homenagear aqueles que, infelizmente, perderam suas vidas para a Covid-19, o A TRIBUNA conversou com alguns familiares de vítimas. Eles contam um pouco de como é a dor de perder um ente querido em uma pandemia, a vivência do luto e as dificuldades de seguir a vida depois da perda.

 

 

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A jornalista Patrícia Casali perdeu o pai em outubro do ano passado. Seu João Wildmar Casali tinha 79 anos e faleceu no dia 2 de outubro de 2020, após passar 23 dias em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Hospital Regional de Rondonópolis. Seu Casali, como era chamado por quem o conhecia, deixou a esposa, quatro filhas, netos e bisnetos. Era um homem saudável, brincalhão e que gostava de estar reunido com a família. Veio com a família para Rondonópolis em 1982 e comprou terras para plantar soja com o sonho de melhorar de vida. Depois de trabalhar muito a vida inteira, ele finalmente, estava começando a usufruir de tudo que conquistou. “Quando ia começar a usufruir, morreu”, lamenta a filha.

“Perder um pai… Um pai pode ser muitas coisas, pode transcender ‘muitas coisas’. E você à distância, sem ver, sem se despedir… Há uma ruptura em todo o processo cultural de morte, porque não há um corpo para se chorar. Há o imaginário e um caixão lacrado”, relata ela que acrescenta que a dor também é pelos demais, pelas outras vidas que se perderam nas mesmas condições, pela mesma doença em meio uma pandemia.

“Não dá para falar em morte de um somente, quando há centenas que passaram e outros que viverão, com certeza, o mesmo processo. Oito meses depois da cena do caixão lacrado, existe uma dor, uma saudade e o sofrimento de um luto coletivo. Porque não há o aceite, há o sentimento de perseverança em viver apesar da dor, que é latente e revivida a cada poste de luto do facebook e em cada informe dos jornais”.

 

João Wildmar Casali faleceu aos 79 anos: saudável, brincalhão e gostava de estar reunido com a família (Foto – Divulgação)

Patrícia reforça que as mortes da pandemia não podem ser entendidas como um número apenas, é algo muito maior que isso. “Ele está ali, contabilizado, mas não é um número. É alguém alegre, cheio de vida, que viveu a vida e que foi derrotado pelo vírus. Vive em outro mundo, no meu coração, com menos sofrimento, menos tristeza”.

Jamal Daud também chora a perda da esposa e do filho. Abalado e muito emocionado, ele diz que lhe faltam palavras para explicar a tristeza. “Agora é só saudade”, afirma. O engenheiro civil e servidor público perdeu a esposa, Raja Tareq Daud, com quem estava casado há 35 anos no dia 18 de abril deste ano e o filho, Nafez Daud, de apenas 30 anos, no dia 3 de maio deste ano. Raja tinha 54 anos, não tinha nenhum problema de saúde e faleceu depois de cinco dias internada, três destes na UTI da Santa Casa de Rondonópolis. Nafez também era saudável e faleceu em São Paulo, onde estava internado na terapia intensiva. Ele estava programando se casar em outubro próximo.

“Não tem como entender. Ela estava bem, saudável, fazia exercícios físicos. Era o Nafez quem geralmente acompanhava a mãe nas caminhadas. É difícil. A gente fica assim: poxa, eram pessoas saudáveis, novos, sem problemas de saúde e com vários planos ainda pela frente. Com muita vida para viver. Hoje agradeço o tempo que eles passaram com a gente. A Raja era maravilhosa, minha companheira, não tenho nem uma pequena reclamação em todo tempo que estivemos juntos, e meu filho era um menino muito humilde, cheio de planos, um menino especial, querido por todos”, lamenta Jamal.

Ele conta que a família está devastada pelas perdas. Jamal e Raja tinham quatro filhos. Dois casais. A família ainda está em luto com as perdas recentes e repentinas. “É muita tristeza. No fim do dia costumamos nos reunir (a família) e não dá para entender que eles não estão mais aqui. Minha filha ainda chega procurando pela mãe”.

Diante da perda, Jamal Daud diz que seu desejo é que a vacina chegue logo para todos os brasileiros, para que nenhuma outra família seja destruída. Ele manda um recado: “A doença existe, as pessoas precisam se cuidar, os governantes precisam ouvir primeiro a ciência para que não tenhamos mais mortes e mais famílias sejam destruídas. Ninguém precisa esperar que aconteça com ele para entender. É preciso tomar o máximo de cuidado”.

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