(*) Ronaldo dos Santos

As experiências de cada sujeito são muitos singulares e estão imbricadas dentro de um processo de subjetivação que escapa a qualquer resposta superficial. No entanto, eu ouso dizer que minha vida seria diferente. Mesmo que, àquela época, talvez não conseguisse fazer a assimilação necessária, o processo de amadurecimento do futuro, sem dúvidas, faria com que eu revisitasse as projeções da Educação Básica.

Mesmo que você não acredite, sua vida seria diferente. Talvez não em um sentido profissional ou econômico, mas na percepção desenvolvida para lidar com o mundo, porque viver envolve sentidos. Sendo assim, é a percepção desses/dessas jovens que a disciplina de Projeto de Vida, inicialmente, buscar modificar, sobretudo no sentido de ajudá-los/ajudá-las a pensarem que as escolhas os levam a algum lugar e são eles/elas os/as responsáveis pelos lugares que ocuparão no mundo.

Mas, afinal, o que é o Projeto de Vida? Gilberto Gil cantava “meu caminho pelo mundo, eu mesmo traço; a Bahia já me deu régua e compasso. Quem sabe de mim sou eu”. É daí que emerge a definição de Projeto de Vida que “é o traçado entre o ser e o querer ser”. Por exemplo, o que você é? O que você quer ser? De que forma pode chegar ao que se quer? Quais os caminhos? O que é preciso mudar? Quanto tempo precisa para alcançar essa meta levando em consideração a sua vida hoje?

Mas, como se faz isso? Quem responde é Clarice Lispector quando escreveu uma instigante carta à sua irmã Tânia Kaufmann dizendo “até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”. Sendo assim, para dar vida ao projeto de vida é preciso um intenso processo de autoconhecimento, identificação dos desejos, desenvolvimento das potencialidades e, ao mesmo tempo, revisão de valores, pois alguns deles impactam positivamente ou negativamente na construção do projeto de vida. É partir do autoconhecimento, ou seja, das autorreflexões acerca de si que os/as estudantes planejam, organizam e caminham rumo aos seus projetos de vida.

Em diversas ocasiões, eu, enquanto professor da disciplina de Projeto de Vida, tenho me questionado: e se eu tivesse sido formado em uma escola como esta que leciono, como seria a minha relação com meu projeto de vida hoje? Se eu tivesse tido acesso ao processo de reflexão que faço com meus/minhas estudantes, quais contornos minha vida teria nos dias de hoje? Como teria lidado com questões que me angustiaram de forma intensa devido ao despreparo emocional? Será que não teria sido mais fácil lidar com as frustrações? Será que não teria projetado um futuro menos romantizado? Será que não teria construído uma relação mais madura e menos sofrida com a minha formação em nível superior? O certo é que a geração de estudantes que têm acesso a essas discussões, não lidará com os impasses da vida da mesma forma que as gerações que não tiveram a possibilidade de fazê-las.

Por fim, já meio convencido de que vocês compreenderam a importância da disciplina de Projeto de Vida no currículo das escolas plenas, gostaria de finalizar a discussão afirmando que cada vez que estou/estive com os/as estudantes pensando questões sobre o projeto de vida, não deixei de pensar em minha própria vida, em meu processo de escolarização e em meu compromisso com a Educação Básica, agora, como docente.

A disciplina de Projeto de Vida é uma experiência que vale a pena viver nas escolas plenas e deve ser estendida a todos/todas jovens brasileiros/brasileiras que, nos dias de hoje, dividem sua vida entre sonhar ou ter que se entregar à necessidade de sobreviver no mundo: o projeto de vida ensina que é possível fazer os dois!

(*) Ronaldo Alves Ribeiro dos Santos é graduado em História e Pedagogia. Mestre em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (2017). Professor, na Escola Plena Pindorama, nas disciplinas de Projeto de Vida e História).

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here