(*) Ronaldo dos Santos

Costuma-se dizer que a disciplina de Projeto de Vida é o coração da escola plena. Mas, afinal, o que significa tal afirmação? Antes de explicar a afirmação, pense na desordem provocada a um corpo quando o coração ameaça parar de bater. Sendo assim, antes mesmo de elucidar a você a importância do Projeto de Vida no currículo da instituição, você já tem uma noção do que pode acontecer caso não seja dada à atenção necessária à disciplina.

Dentro de uma relação metafórica costuma-se pensar o Projeto de Vida como coração da escola porquê é essa disciplina que sustenta todo o currículo da Escola em Tempo Integral, que, no estado de Mato Grosso, está caracterizada como Escola Plena. Mas existe aí uma diferença crucial – o coração bate com movimentos involuntários; o Projeto de Vida, não funciona com movimentos involuntários. O coração que bate em um corpo pode vir a parar de bater independente da vontade do indivíduo; o Projeto de Vida, ao contrário, não. Ele só pode vir a cessar seu movimento vital, intencionalmente.

A disciplina de Projeto de Vida emergiu de uma necessidade histórica, observada no momento em que os/as estudantes do Ensino Médio concluíam o processo de escolarização da Educação Básica, divididos/divididas, por motivos diversos, entre o mercado de trabalho ou suas expectativas de futuro (sonhos, metas, projeções, expectativas, projetos de vida), quase sempre optando por decisões ligadas à necessidade de sobrevivência, não conseguindo no decorrer da vida se dedicar à realização de seu projeto de vida, por não ter sido/sida ensinado/ensinada na escola a articular as dificuldades da vida com as realizações pessoais.

Com isso, não quero dizer que os/as estudantes que se formam em uma Escola Plena não busquem se inserir no mercado de trabalho porque tem que realizar seu projeto de vida, ao contrário, o que se ensina é que, sim, muitos/muitas terão que ceder à necessidade de trabalhar, mas é possível fazê-la sem ter que abrir mão de realizar seu projeto de vida. Afinal, o que vale mais: viver uma vida inteira sem realizar um sonho ou realizá-lo de forma tardia?

Pense você mesmo/mesma em seu processo de escolarização. Havia espaço para se pensar, organizar e planejar o futuro? E se, ao invés de ter dito a você que a vida é mais difícil do que se pensa, a escola tivesse lhe dado a oportunidade de mostrar como se lida com esses desafios, será que você seria o/a mesmo/mesma de hoje? Se você tivesse sido, para além de sonhar, ensinado/ensinada pela escola a lidar com as frustrações, como seria sua vida atual? Se você tivesse sido ensinado/ensinada pela escola a planejar suas ações para a realização de seu projeto de vida, como seria sua vida hoje? E, por fim, se tivesse sido ensinado/ensinada pela escola, desde cedo, a compreender que sua vida é resultado de suas ações, como seria sua vida neste exato momento?

Pense naqueles sonhos que você tinha quando criança, onde será que estão? Foram abandonados ou remodelados dentro de um processo de amadurecimento? Caso tenham sido abandonados, quais razões incidiram sobre essa escolha? Caso tenham sido remodelados, quais as razões recaíram sobre essa remodelação?

O Projeto de Vida como disciplina escolar serve aos nossos/nossas jovens de escolas públicas que não tem um lugar privado para pensar e organizar o futuro. Serve à medida em que possibilita pensar sobre o futuro, não dentro de um processo de romantização da caminhada, mas, sim, levando em consideração as adversidades e a forma como se pode contorná-las na dura experiência de viver a vida.

Imagine você longe de todo o percurso de amadurecimento vivido até hoje, pense como sua vida poderia ter outros contornos se você tivesse vivido a experiência do projeto de vida em seu processo de escolarização. Como seria sua vida, nos dias de hoje, se você tivesse aprendido desde cedo que suas escolhas incidiriam sobre a sua vida? Que levamos tempo para realizar sonhos e que esse tempo deve ser uma relação sua com o mundo? Como seria sua vida, se você tivesse aprendido na escola, que você poderia ser o que você quisesse? Como seria sua vida, se a escola, tivesse ensinado você a sonhar?

(*) Ronaldo Alves Ribeiro dos Santos é graduado em História e Pedagogia. Mestre em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (2017). Professor, na Escola Plena Pindorama, nas disciplinas de Projeto de Vida e História).

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