Quando nos referimos à língua franca do momento, sinônimo de língua estrangeira no Brasil e em praticamente todos os países do mundo onde ela não é a primeira ou a segunda língua de comunicação cotidiana entre seus habitantes, podemos dizer ‘inglês’ ou ‘língua inglesa’ – talvez ‘English’ e ‘English language’, respectivamente.

À primeira vista, eis apenas um jogo de palavras, uma brincadeira linguística sem muito a acrescentar ao seu sentido ou entendimento, resumida a duas opções somente. Só que não! Afinal, há muito mais envolvido aqui do que a reles justaposição de letras e sílabas, como julga a nossa vã filosofia. Para nós, estudiosos do idioma, é preciso ir ao menos um pouco mais além daquilo que os nossos olhos conseguem ver, dear reader.

Comecemos, pois, pelo mais óbvio: o uso de letra inicial maiúscula para a palavra English, por se tratar de um gentílico (substantivo ou adjetivo pátrio), vocábulo esse que se refere a uma pessoa de acordo com o seu local de nascimento ou residência: cidade, estado, país e continente, dentre outras possibilidades. Como os gentílicos não costumam seguir um padrão muito claro para as suas terminações, é preciso memorizá-los. Em inglês, a propósito, além do –ish, há também as terminações -ese, -an e –i (caso de Japanese, Brazilian e Iraqi, for instance), havendo ainda a possibilidade de ocorrência de compostos como Afro-American e African American.

Segundo ponto: sozinha, a palavra ‘English’ pode ser classificada como um substantivo comum, por provavelmente se referir ao povo ou ao idioma bretão, que tem estreita relação com a Inglaterra, um dos países integrantes da Grã-Bretanha ou do Reino Unido. No entanto, quando acompanhado de ‘língua’, o verbete ‘English’ passa a ser um adjetivo, pois passa a qualificar o substantivo ‘language’. Decorre daí uma das regras mais elementares da língua inglesa: ao contrário do que geralmente ocorre na língua portuguesa do Brasil, o adjetivo deve aparecer antes do substantivo no idioma de Shakespeare. Portanto, ‘relógio suíço’, ‘pizza italiana’ e ‘produto chinês’ viram ‘Swiss watch’, ‘Italian pizza’ e ‘Chinese product’ em inglês. Mas muito cuidado com as construções ‘pão francês’ e ‘batata inglesa’, por exemplo, que não devem ser traduzidas literalmente. Na verdade, em inglês, elas são ‘roll’ e ‘sweet potato’, respectively.

Por fim, é preciso ressaltar que ‘English’ tem conotação masculina, enquanto que ‘English language’ tem sentido feminino. Em outras palavras, tais estruturas linguísticas dão a entender gêneros diferentes, mas não necessariamente superiores ou inferiores por algum motivo. Eis apenas uma constatação que nem sempre é levada em consideração por aprendizes e professores do idioma bretão aqui no Brasil. Para efeito didático, ressaltar características masculinas e femininas atribuídas ao ‘inglês’ ou à ‘língua inglesa’ teoricamente ajudam nossos e nossas aprendizes a ver ‘o English’ ou ‘a English language’ por um ângulo bem diferente daquele a que eles e elas estão acostumados, que beira a chatice total. Assim considerando, talvez tais learners consigam até mesmo personificar um e outro, tratando-os como friends, ou algo mais.

Assim sendo, uma vez contempladas essas três constatações, cremos que tanto nosso alunado (e professorado) pode inaugurar uma nova era no que se refere ao seu relacionamento e contato com o English, ou a English language – estabelecendo, a partir de agora, uma relação de maior interesse e intimidade com ele (no caso das girls) ou com ela (no caso dos boys). Nada que uma rápida visita a uma ou outra sala de aula, daqui a alguns anos, se preciso, não possa nos ajudar a observar se houve alguma mudança teórica e prática, right?

 

(*) VALÉRIA CRISTINA NEGRETTE DA NÓBREGA BUZATTI é pós-graduada em Ensino de Língua Inglesa (UFMT) e professora efetiva da rede municipal de ensino. JERRY T. MILL é Mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro-fundador da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras), associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis e autor do livro Inglês de Fachada.

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