11/05/2021 – Nº 619 – Ano 15

 

Uma das principais formas de garantir ascensão social é através da educação. Não há dúvidas sobre o impacto positivo que ela oferece para quem está na base da pirâmide. Possui capacidade de influenciar já nos curto e médio prazos. Há pesquisa farta capaz de evidenciar os resultados excepcionais no horizonte de uma geração apenas. Sou exemplo vivo dessa possibilidade.

A propósito, muitos amigos de infância, que coabitavam a mesma realidade, mas cujos pais infelizmente não tinham a visão e a tenacidade que os meus, sucumbiram ao seu intento de avançar na pirâmide social e nunca saíram da realidade onde nasceram.

A crise mundial patrocinada pela pandemia, em apenas 1 ano, contribuiu para aumentar ainda mais as desigualdades. Tanto as locais quanto às entre os países ou regiões. Ao olhar o modelo padrão de pirâmide social, a base aumentou nesse período e o topo ficou mais estreito. Se antes já era difícil ascender socialmente, nesse período, tornou-se praticamente impossível.
Um estudo recente do Observatório das Metrópoles, em parceria com a PUC/RS e o Observatório da Dívida Social na América Latina, revelou que entre 2019 e 2020 houve perda de renda para todos os extratos sociais, mas apontou que os mais pobres perderam ainda mais.

De acordo com os resultados da pesquisa, os 10% de brasileiros que fazem parte do topo da arrecadação perderam 6,9% de rendimentos, enquanto os 40% mais pobres perderam 34,2%, o que evidencia o impacto nefasto adicional da pandemia sobre aqueles que já se encontravam em situação vulnerável.

Mas vale lembrar que isso é efeito no curto prazo. Ainda não sabemos quais serão as consequências nos médio e longo prazos. A sociedade ainda está se recompondo e se reorganizando para ordenar um novo modus operandi. Ninguém sabe ainda como isso acontecerá. Mas já sabemos que ao insistir em deixar de priorizar a educação ela será mais intensa nesses países e para aquelas pessoas com baixa qualificação.

Dentre outros motivos e por sabermos que a educação é base para manter ou ascender posições sociais coletiva ou individualmente, com os devidos cuidados, devemos enfrentar os riscos de enviar as crianças para as escolas mesmo sem que elas estejam vacinadas. Eu tenho filhos em idade escolar e não escondo meu receio, embora tenha plena convicção de que eles precisam seguir em frente.

Adicionalmente, são incalculáveis (e não é apenas força de expressão) os prejuízos que a falta de convívio social está causando nas crianças e adolescentes. Muitas crianças estão num nível de estresse tão grande que os danos já são considerados irreparáveis, embora muitos pais e mães nem mesmo se deem conta. Nos estratos que tem poder aquisitivo, está havendo uma corrida aos consultórios psicológicos. Nos demais, as crianças estão largadas a própria sorte.

Sobre o ensino remoto, devemos lembrar antes de tudo que ele nem mesmo é recomendado para as faixas etárias iniciais, além de estarmos cientes de que a aplicação generalizada aumenta ainda mais a desigualdade social, motivado principalmente pela falta de estrutura tanto das famílias como das escolas públicas, além da dificuldade de acompanhamento da maioria dos pais.

Segundo um estudo encomendado pela Fundação Lemann, a educação brasileira pode ter um retrocesso de até quatro anos nos níveis de aprendizagem motivado pela suspensão das aulas presenciais e as dificuldades no acesso ao ensino remoto.

Do mesmo modo, segundo estudos do IPEA, IBGE, Banco Mundial, dentre outros órgãos, sobre a educação no Brasil, em torno de 6 milhões de estudantes não tem acesso à internet com qualidade mínima para atividades remotas, 2 em cada 3 alunos não conseguirão ler adequadamente um texto simples aos 10 anos e 4,1 milhões de jovens entre 6 e 17 anos não tiveram acesso a atividades escolares em 2020.

Não é humano ocultar essa nefasta realidade assim como é necessário tornar os professores parte dos grupos prioritários para vacinação, intensificar a participação efetiva do poder público para garantir a formação continuada desses profissionais para a nova realidade, além de oferecer infraestrutura adequada, tentando recuperar o tempo perdido e o fosso que se ampliou na sociedade.
Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É empreendedor, Diretor da GoJob Brasil, business advisor, mentor e articulista – [email protected] – www.linkedin.com/in/elerihamer

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