O ser humano, enquanto sujeito histórico-social, revela-se na sua expressão social, na relação com o mundo da vida, mediado pela política, ética, arte e ciência, porque neste universo apresenta o mais profundo de sua criação. O fato é que num tempo de “nacionalismo simplório”, que faz com que os que estão à margem do poder tenham “uma percepção de que são indivíduos autônomos”.

Por isso, a paranoia do poder dominante, para mantê-los como massa de manobra, para que não se rebele contra a dominação imposta.
Vive-se hoje uma realidade de desigualdade cumulativa no espaço das relações sociais, sobretudo, quando se refere as mulheres e os pobres. A questão real que perpassa nas conversas da mídia social é uma espécie de “deusologia” de direita raivosa, achando que é a verdade absoluta do universo político no país. Porém, na brecha desse absolutismo evidencia uma lacuna de contradição que forja um espaço temporal, para reação contra o obscurantismo, que se acha hegemônico do desejo e vontade humana.

Mas, para resistir ao projeto cultural, político e educativo, que se faz dominante numa sociedade organizada, inclusive no imaginário coletivo, faz-se necessário firmeza de propósito teórico, compromisso pessoal, força de vontade e práxis pedagógica transformadora. Contudo, antes de tudo, é importante fazer uma leitura crítica de mundo, que desvela o desafio que tenciona a relação política na escola, na prática docente e organização popular.

No caso da educação na escola, quando se trata do orientativo para a organização do trabalho pedagógico e o fazer docente na sua autoria, na prática tem muita gente que ainda não saiu da condição, de que pensa que faz, mas realmente não faz o que pensa que faz. Isso inferir que sujeito não age no vazio, mas inserido num processo histórico, por isso que sua prática é resultado da cultura apropriada, de forma crítica ou alienada, inclusive religiosa.

Neste sentido, o seu fazer pode seguir o caminho da adaptação ao mercado da sobrevivência ou rebela-se como ação problematizadora do instituído. Na dialeticidade da prática, pode ser que “não faço o que quero, mas o que detesto”, desejo que seja para criar as condições para transformação social.

A superação da realidade posta é indissociável da questão de desejo e subjetividade, que resulta na formação de hábitos. No contexto da escola, ao modo que está sendo desenhado, o currículo explícito e veiculação do oculto, com a nova estratégia de formação e organização da gestão é que o professor/a passa a ser signatário/a de uma prática pedagógica, não o bastante autônoma e forte para resistência, a política de educação que está sendo implementada.

Por exemplo, a restruturação do CEFAPRO, como estratégia que deixa margem restrita, para que o professor/a envolva com a produção de sua autonomia pedagógica e formação de sua subjetividade-identidade. Associa-se a esse processo de controle, a implementação de escola de cultura militar e a ideia de neutralidade docente, na perspectiva de que o outro possa tomar decisões, sobretudo no campo da disciplina, como se essa questão caracterizasse apenas como ação abstrata separada da atuação da autoridade docente, bem como do processo educativo como ato de preocupação e decisão do coletivo na escola.

A cultura educativa de caráter conservadora focada na força disciplinadora visa o controle da possibilidade que a nova geração não perceba a desigualdade e injustiça social. E assim com o desvelamento dessa realidade, possa fazer a opção ao caminho da rebeldia da consciência de liberdade, como exigência da pedagogia da pergunta. Esse modelo de educação que estimula a curiosidade epistemológica do estudante, para perceber a contradição entre a escola e o modo de vida, vai-se abrindo brecha para “construir a inteligibilidade das coisas”. É neste ponto que entra a lógica do sistema, com a tentativa de desqualificação de Freire, no aspecto da qualidade da educação.

Porém, o que precisa ser compreendido é que o modelo de institucionalização da educação, para escamotear a sua responsabilidade social, para impressionar a massa busca um bode expiatório. O que temos em evidência é o cerceamento da gestão democrática e esvaziamento da educação pública. Isso é o que caracteriza o verdadeiro uso político, como estratégia de regulação do sistema e prática docente, a serviço do projeto excludente de educação. Nesse mundo de tensão e controle na escola, a vítima do sacrífico deságua no professor.

A questão que precisa ser compreendida pelo professor, que a tese que subjaz a política de educação, para justificação da assunção da cultura de neutralidade da prática docente, cultura formativa para submissão e passividade agressiva, caracteriza como resultado da falta de consciência de classe e percepção mais ampla da realidade socio-econômica-política. É no vácuo da ausência que vai formando a subjetividade da renúncia da luta. E resulta no estágio de hibernação e adaptação ao sistema, como condição que a reduz ao consumo pronto do mercado privado, como caminho de volta a colonização do desejo de sobrevivência.

É ainda importante um entendimento que no caminho perverso da educação, pensada pelo sistema atual, veicula o simulacro da meritocracia. Esse modo de pensar está associada a oficina de corrosão do trabalho coletivo e formação do cidadão para o bem comum.

Para ruptura da lógica da perversidade estruturada na separação entre o pensar e o fazer, a transformação da educação na escola em qualidade social, precisa ser fundamentada no pressuposto da teoria crítica, como suporte do ponto de partida de reflexão do estudo, para construção e avaliação permanente da opção assumida, com a intencionalidade de construção de projeto de educabilidade e processo de ensino-aprendizagem, num movimento que expressa a prática da liberdade humana.
Sem medo de ser feliz, para além do medo, uni-vos na ousadia. É o tempo de construção do éthos antropológico libertador.

 

(*) Dr. Ademar de Lima Carvalho é professor universitário na UFR.

 

1 COMENTÁRIO

  1. Pretenso erudito torna-se prolixo e patético . Lamentável que jovens em formação sejam obrigados a “aprenderem ” com essas cabeças do século retrasado.

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