Há um abismo muito grande entre babaca e assassino, o babaca é imputável e o assassino não, ainda mais sendo doutor, este tal de Jairinho.

A criança berrou para o vazio. Sua voz ecoou, gritando o nome dele repetidamente, não houve reposta. Estava aos prantos. Seu rosto, uma confusão de lágrimas. Tragado pela escuridão da violência incompreensível.

Depois disso escuto um choro. Depois da brutalidade do quarto, a sala passava uma sensação claustrofóbica, e por todos os lados xícaras cheias pela metade disputavam espaça e uma criança sendo agredida daquele jeito. Deixou rastos sobre os labirintos dos efeitos produzidos do corpo da criança. Num só espaço estava tudo o que o há de mais angelical e monstruoso na vida.

Todos agora falam desta violência, da relação do monstro com o anjo. Da vulnerabilidade de uma criança, da sua fragilidade. Importante é compreender que certas coisas não podem acontecer, mas já aconteceram, melhor dizer não devem acontecer nem antes, nem depois. Há um momento para tudo, diz o nosso Eclesiástes. As portas, as portas, fechem as portas de tanta monstruosidade.

Não posso enxugar todas as lágrimas, enxugue uma, a minha e lembrei-me de uma imagem da casa de minha avó: uma dançarina mantinha com as duas mãos levantadas uma concha, de onde gotejava uma lágrima, enquanto aos seus pés corria livremente um regato de lágrimas.

(*) João Misael Tavares Lantyer é natural e morador de Salvador (BA), engenheiro civil e de Segurança do Trabalho, ex-Juiz Classista, Perito da Justiça do Trabalho e Federal.

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