A utilização do medicamento tocilizumabe para o tratamento de pacientes com a Covid-19 têm levado famílias de Rondonópolis a buscarem de todas as maneiras custear a compra do remédio e apostarem suas esperanças no tratamento para salvar a vida de entes queridos

. As vaquinhas online para arrecadar fundos para a compra do medicamento têm se tornado cada vez mais comuns na cidade.

 

 

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Porém, apesar de apresentar alguns resultados positivos apontados em estudos realizados em vários países no tratamento de pacientes da Covid-19 em estado grave, médicos alertam que o tocilizumabe não é “cura” para a doença e nem mesmo pode ser utilizado em todos os pacientes. Eles pedem cautela.

A BUSCA

Além das limitações na utilização do tocilizumabe, ele também é um medicamento de alto custo e o tratamento para um paciente em estado grave em UTI pode chegar a custar até R$ 40 mil atualmente. Mas a esperança das famílias em salvar a vida de um ente querido faz com que muitos busquem levantar recursos para adquirir o medicamento de todas as formas. Se desfazendo de bens, arrecadando dinheiro entre familiares e amigos e na realização de vaquinhas online.

Uma dessas famílias de Rondonópolis buscava no início desta semana recursos por meio de uma vaquinha. Nas redes sociais, a filha pedia auxílio para comprar o medicamento para “salvar a vida da mãe”.

Informava que seriam necessários R$ 36 mil para a compra do medicamento e que faltava ser arrecadado R$ 11 mil. Da mesma forma, várias outras famílias da cidade têm feito o mesmo.

Acontece que, além do alto custo, o tocilizumabe não é atualmente fornecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e nem por planos de saúde, apesar de ter sido autorizado recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento da Covid-19.

O aumento de utilização do medicamento ocasionou ainda elevação no preço e a Roche, farmacêutica que produz o tocilizumabe, chegou emitir nota no último dia 4 de abril informando que o medicamento não está disponível no momento no Brasil.

A farmacêutica informou ainda que busca aumentar a produção, mas não estabelece datas para o reabastecimento no país.

Há ainda relatos de médicos que atuam em hospitais de Rondonópolis de que familiares chegam ao hospital com o medicamento já comprado e pedem para que o paciente seja medicado com ele. Depositam a possibilidade de cura em um tratamento que não pode ser utilizado para todas as pessoas e pode não ser a indicação para o familiar que luta contra a doença.

Diante dessa situação, médicos pedem para que as pessoas sigam as orientações médicas e não acreditem nas inúmeras informações difundidas sobre medicamentos para a Covid-19. Eles ressaltam que a doença não tem um medicamento que a cure até o momento e que os tratamentos devem ser adotados por critérios médicos.

A médica intensivista Daniele Marques, que desde novembro de 2020 utiliza tratamento com o tocilizumabe, reforça que passou por treinamento para o estudo realizado na Santa Casa de Rondonópolis, onde se implantou o tratamento com o medicamento na cidade.

“Quando a Santa Casa iniciou a utilização do tocilizumabe já existia um estudo robusto sobre seu uso para pacientes com Covid-19 e, mesmo assim, fui tutelada por pesquisadores e médicos para a realização do tratamento”,explica e complementa que, com o treinamento e seguindo os critérios necessários, foi possível verificar entre os pacientes tratados na UTI da Santa Casa que em média 3 em cada 10 pacientes que fizeram tratamento com o tocilizumabe tiveram benefícios.

“Mesmo assim é preciso ressaltar que a amostra era muita pequena para que se tenha conclusões mais definitivas”.

Para ela, é fundamental que não se forneça um tratamento que pode trazer malefícios aos pacientes.

“Assim como outros medicamentos, o tocilizumabe deve ser utilizado com muito critério. Um exemplo do que não pode ocorrer é o que aconteceu com a hidroxicloroquina, que inclusive, ocasionou a morte de pacientes por problemas no fígado. Outro exemplo é a ivermectina, que inicialmente apresentou resultados positivos em testes in vitro contra o coronavírus, mas que não teve resultados positivos em sua utilização entre os pacientes”, finalizou.

Santa Casa de Rondonópolis, onde se implantou o tratamento com o medicamento na cidade, participou de estudo em parceria com a Universidade de São Paulo – (Foto – Arquivo)

Tocilizumabe: Medicamento tem resultados positivos, mas não é cura

Médica alerta que não se trata de um medicamento indicado para o tratamento de todos os pacientes e que é preciso seguir critérios para a sua utilização

Antes de tudo, vale explicar que o tocilizumabe é um medicamento anti-inflamatório moderno que é utilizado no tratamento de artrite reumatoide e outras doenças inflamatórias e, desde abril de 2020, vem sendo utilizado por médicos no tratamento de pacientes da Covid-19 em diversas partes do mundo.

Um estudo divulgado em 11 de fevereiro de 2021 pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, denominado “Recovery”, aponta que ele pode reduzir a mortalidade nos quadros mais críticos da doença e contribuir para evitar que o paciente necessite de ventilação mecânica.

O “Recovery” analisou 4 mil pessoas internadas em estado grave pela Covid-19 de abril de 2020 a janeiro de 2021. Destes, 2.022 pacientes receberam o tocilizumabe e 2.094 receberam tratamento convencional sem a utilização do medicamento. Segundo o estudo, foi observado que 33% dos voluntários do grupo com tratamento convencional morreram, enquanto que entre no grupo que utilizou o tocilizumabe, 29% morreram.

Ou seja, a cada 25 pessoas utilizando o tocilizumabe, nesse cenário, uma vida a mais poderia ser salva.

Em Rondonópolis, a Santa Casa de Misericórdia integrou um estudo em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) para a utilização do medicamento em pacientes em estado grave e internados em leitos de terapia intensiva e, segundo a médica intensivista Daniele Marques, chefe da UTI da Santa Casa que conduziu o estudo no hospital, o tocilizumabe pode ser considerado hoje um medicamento bem indicado e com boa resposta no tratamento de pacientes em estado grave da Covid-19.

Contudo, alerta que não é um remédio indicado para o tratamento de todos os pacientes e que é preciso seguir critérios para a sua utilização e indicação, que a equipe médica precisa de treinamento para administrar o tratamento e que o medicamento precisa ser usado em combinação com outros remédios, como a dexametasona, e outras terapias.

Mesmo não sendo um medicamento indicado para pacientes com quadros leves ou moderados da Covid-19 e não poder ser prescrito a pacientes com quadros infecciosos de outras doenças associadas, infecções por bactérias entre outros, muitas famílias têm depositado a esperança de recuperação no medicamento.

“O tocilizumabe é indicado para situações bem limitadas, deve ser usado apenas em ambiente hospitalar e supervisionado. O tratamento com esse medicamento deve ser iniciado para pacientes no início da fase inflamatória da doença e em até 24 horas após a intubação.

Quando o tratamento é feito da forma indicada, seguindo todos os critérios necessários e após análise individual de cada paciente, a resposta é positiva, diminuindo a mortalidade e necessidade de utilização de ventilação mecânica, mas não pode ser tratado como a solução para todos os pacientes”, explica Daniele Marques.

A Associação de Especialistas Médicos e outros profissionais de Rondonópolis (Aempro) também faz alerta sobre o uso do tocilizumabe.

O médico Pedro Maggi reforça qu,e para que o tratamento seja utilizado, é preciso seguir sempre os critérios médicos com análise individualizada de cada paciente. “É importante que as pessoas saibam que não é a “cura” da Covid e não pode ser utilizado por pacientes em estados leves e moderados da doença.

É um medicamento indicado para pacientes graves em UTI e a decisão sobre o uso ou não do medicamento deve ser exclusivamente por critério médico”, destaca.

Diretor da Companhia de Desenvolvimento de Rondonópolis (Coder), Argemiro Ferreira de Souza, foi tratado com o tocilizumabe na Santa Casa: “Sei que as minhas chances eram mínimas e, mesmo assim, foi possível” – (Foto – Arquivo)

Pacientes se recuperam com o tratamento em Rondonópolis

 

Com tratamento realizado pelo SUS, o diretor da Companhia de Desenvolvimento de Rondonópolis (Coder), Argemiro Ferreira de Souza, foi tratado com o tocilizumabe na Santa Casa.

Hoje, há 49 dias fora do hospital e recuperado da doença, Argemiro conta que, no seu caso, o medicamento foi primordial.

“Sei que as minhas chances eram mínimas e, mesmo assim, foi possível”, diz.

Argemiro descobriu a Covid-19 e, nos primeiros oito dias se tratou em casa, quando o quadro começou a se agravar. Ele foi primeiramente foi internado para acompanhamento médico na enfermaria, onde ficou três dias e teve que ser encaminhado para a UTI.

Foi quando a equipe médica informou que Argemiro iria ser internado no tratamento intensivo que teve início a luta de sua esposa, Sandra Cardozo Matos de Souza.

Foi ela quem foi informada sobre a possibilidade de tratamento com o tocilizumabe e, em conversa com a equipe médica, foi orientada que Argemiro poderia fazer uso do medicamento, mesmo que com chances pequenas de sucesso.

“O problema era que o remédio não estava disponível para compra em Rondonópolis, mas durante a busca, foi possível comprar com uma família daqui que havia adquirido o medicamento, mas a paciente não pode usar, pois acabou falecendo antes.

Na época, pagamos um valor menor do que hoje. Cerca de R$ 1.900 por dose. Sabemos que hoje o valor está bem maior”, relata Sandra.

Argemiro inciou o tratamento e passou 15 dias na UTI, chegou a ter mais de 90% dos pulmões comprometidos pela doença, mas não precisou ser intubado e se recuperou.

Quando saiu da UTI, ainda permaneceu mais três dias no hospital na enfermaria e então pode voltar para casa. “Após 13 dias, consegui sair de casa superando todas as expectativas médicas”, explica.

Ele foi acompanhado pela médica intensivista Daniele Marques, a quem Sandra agradece pela recuperação do marido.

“A dr. Daniele e toda a equipe da Santa Casa foi incrível”, diz e completa que o SUS precisa fornecer o tocilizumabe, pois é preciso salvar todas as vidas possíveis.

“Sabemos que o percentual dos pacientes que fazem o tratamento com o tocilizumabe e se recuperam ainda é pequeno, 3 para cada 10, e no meu caso, por ser hipertenso, era ainda menor a possibilidade. Menor que 1. Mas foi possível”, argumenta Argemiro que agradece a Deus pela recuperação.
Sandra conta ainda que até hoje ajuda em vaquinhas online famílias que precisam adquirir o medicamento.

“Penso que é preciso tentar. Quando decidimos pelo tratamento, eu pensei: se não resolver, mal não fará. Então tentamos. E deu certo”.

1 COMENTÁRIO

  1. A pessoa da qual cita a reportagem é minha tia Abgail, recebemos a informação de um parente médico que alertou a família que esse remédio estava salvando vidas de pessoas entubadas e que devido a grande procura não é fornecido pelo SUS e nem tão pouco seria fácil acesso.

    A família fez uma operação de guerra: Primeiro encontrar o medicamento, segundo: levantar a quantia de 36 mil reais.

    Nesta busca encontramos de tudo, estelionatário, valores exorbitantes que passavam os 80 mil. Com a Graça de Deus conseguimos as doses em Goiânia de um distribuidor honesto que nos forneceu a medicação por 9 mil a caixa.e o tratamento completo são 4 caixas.

    Conseguimos arrecadar com a família 25 mil e nas redes sociais mais 22 mil sendo um total de 47 mil, e que desde já a família agradece a todos aqueles que contribuiram para essa arrecadação.

    Foi administrado a medicação na quarta feira e no sábado o quadro clínico melhorou 90%, está entubada ainda, com a saturação em 97% o estado de saude é grave mas com melhoras significativas após o uso da medicação.

    Na minha opinião se esse remédio desse o resultado de 1% mesmo assim a familia iria se mobilizar e se apegar neste 1% seria pouco mas seria melhor do que ficar aguardando a medicação cair do céu.

    Interessante que nesta busca desesperada encontramos essa medicação disponível na França com custo baixíssimo…agora faço várias perguntas?
    SE O RESULTADO, CONFORME A REPOSTAGEM DE 10 PESSOAS 3 TEM RESULTADO FAVORÁVEL OU SEJA 30% . PORQUE OS GOVERNOS NÃO SE MOBILIZAM PARA ADQUIRIR DE OUTROS PAISES QUE A COVID JÁ ESTA ESTABILIZADA? O QUE ESTÁ FALTANDO? VONTADE POLITICA? SERÁ Q POR TRÁS DAS MORTES TEM GENTE TIRANDO VANTAGENS?
    PORQUE A VACINAÇÃO ANDA DE PASSOS DE TARTARUGA?

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