A crônica leva seu nome devido à sua indexação a eventos reais do tempo presente. Nascida no berço do jornalismo, popularizou-se, foi praticada por escritores de renome e alcançou o estatuto literário. Particularmente, é meu gênero preferido quando acho que preciso me expressar.

Gosto também do diário e do poema, mas estes são gêneros que acabo reservando para conversas comigo mesmo. A crônica, eu ia dizendo, admite tanto uma vinculação imediata com o real quanto uma formatação literária.

Falando em real, um fato que me chamou atenção nos últimos dias foi o encalhe do gigantesco navio Ever Given, de incríveis 400 metros, no canal de Suez, principal ligação marítima entre Ásia e Europa. Uma notícia que está simplesmente clamando por uma crônica, não pode passar batida.

O Ever Given entrou no canal de Suez, abarrotado de contêineres, pesadíssimo e enorme, com já falei. Para azar do comandante, a embarcação enfrentou uma tempestade de areia e fortes ventos que a fizeram sair da rota e a ficar, literalmente, atravessada na estreita passagem. Foram 6 dias, 144 horas, 400 barcos na fila de espera e milhões de dólares perdidos, com perdão do trocadilho, idos por água abaixo. Até que enfim a lua cheia deu uma mãozinha, elevando o nível da água e fazendo o navio voltar à flutuação. Bem, até aqui, só notícia. Mas, convenhamos, clama por um salto metafórico.

Porque nós também, caro leitor, corremos o risco de encalhar no canal de Suez. Encalhar é ficar preso no fundo. Navio foi feito para flutuar, assim como nossa vida para seguir em frente. Não fique encalhado em Suez ou na “sua ex” (peço perdão de novo). Falo da ex-periência, das águas, de novo elas, passadas debaixo da ponte, da vida que ficou para trás e que traz, muitas vezes, ventos que nos tiram da rota, traumas que nos tolhem os sonhos e frustram a viagem. Quem nunca?

Mas sua tempestade de areia pode ser outra. Não o passado e sim os rigores do presente, a pandemia, a crise, as perdas. Ainda por cima, pode ser que esteja muito carregado, com pilhas de contêineres que além de tudo obstruem a visão da paisagem. Por que não trocar o Ever Given por um veleiro leve e ligeiro?

Por que não simplificar a vida em prol de uma navegação mais fluida e agradável? Lembremos ainda que, como ocorreu com o pesado protagonista desta crônica, navio encalhado se tornar um estorvo para terceiros. Faço votos de que a lua cheia brilhe em sua vida, elevando as águas e fazendo seu barco avançar. Porque assim como são certas as tempestades, certas também são as luas cheias e as mudanças de maré!

 

(*) Marcelo Brito da Silva é Doutor em Linguagem, professor do IFMT, escritor e membro da Academia Rondonopolitana de Letras, cadeira nº 16.

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