30/03/2021 – Nº 614 – Ano 15

 

Se alguém do início dos anos 1900, no alvorecer do século XX, soubesse das maravilhas da comunicação em tempo real que estão disponíveis hoje a qualquer terráqueo, certamente diria que a comunicação não seria mais um problema para a humanidade.

Dá para imaginar uma fase em que as cartas, os jornais e o telégrafo eram os principais meios de comunicação (todos praticamente inacessíveis já que mais de 70% da população brasileira não sabia ler e nem escrever)? E só mais tarde o rádio, também apenas acessível a uma absoluta minoria? Você consegue se imaginar sem internet, celular, redes sociais, transmissões ao vivo em multicanais e interação em tempo real? Ou sem os serviços de mensagem instantânea?

Essa pessoa talvez se arriscaria a dizer que teríamos amizades genuínas à exaustão, conhecimento individual aprofundado, e que as profissões da comunicação estariam fadadas ao fracasso, ou até mesmo extintas, já que qualquer um poderia ser um craque nessa arte uma vez que muitos meios estariam disponíveis permanentemente a qualquer reles mortal. Como de fato estão.

Mas, esse viajante do tempo talvez tivesse uma grande surpresa. Primeiro que as profissões relacionadas a comunicação, ao marketing e a publicidade nunca estiveram tão em alta quanto agora, entremeadas e indispensáveis em todas as demais áreas.

Adicionalmente perceberia também que na prática acabamos por nos encolher. Como humanos, nos tornamos mais amplos, mas muito mais rasos. Conhecemos um pouco de muito, mas não temos profundidade em quase nada.

Na essência nos isolamos atrás das máquinas, da inteligência artificial e dos recursos que elas oferecem.

Nos encarceramos como pessoas. Tenho muitas dúvidas se efetivamente ampliamos nossa rede. Aparentemente temos uma network de milhares de indivíduos, atestada pelas redes sociais, mas reduzimos a pouco mais de uma dúzia as pessoas que realmente conhecemos em carne e osso e com as quais podemos contar quando os problemas aparecem. E eles aparecem todo dia.

A percepção é de que temos tudo e praticamente todos ao nosso alcance. Nos esforçamos diariamente com impulsionamentos e estratégias de marketing digital para dizer e mostrar quem somos e do que somos capazes, tanto na nossa vida pessoal como profissional.

E mesmo assim o sentimento de isolamento é real. Vivemos sozinhos na multidão. Filtramos com elevada seletividade as nossas individualidades com medo efetivo da afetividade. Queremos todos perto e nos notando, mas não perto o suficiente para que nos conheçam de verdade. A comunicação se banalizou. Talvez por isso, ser genuíno tenha tanto valor. É um ativo relevante.

Com tudo isso à disposição, há pesquisas diversas que nos dão mostras inequívocas de que a angústia, as demandas por atenção e a falta de relações afetivas e transparentes são algumas das grandes mazelas da geração atual.

De forma objetiva, proponho que façamos coisas simples para melhorar nosso dia-dia fora das redes sociais e da internet (ou talvez nelas também). Comecemos por cumprimentar genuinamente as pessoas na rua, no elevador e no restaurante.

Se interessar de verdade por aqueles que cruzam o nosso caminho porque, ao invés de nos comunicarmos, baixamos os olhos, desviamos o olhar e evitamos o contado direto. No máximo fazemos um aceno com a cabeça.

Temos medo de sermos invasivos e sermos invadidos.
Na prática perdemos oportunidades enormes por essa diplomacia exagerada e a timidez travestida de proteção. Sejamos mais proativos em todas as oportunidades que pudermos. Tome a iniciativa. Rompa com o silêncio e não se deixe abater pela falta de receptividade inicial.

Seja com uma criança na rua, um ancião sentado no parque, um colega ou um engravatado no metrô. Aproxime-se, pergunte alguma coisa. Inicie uma conversa, conecte-se, seja curioso. Ofereça inspiração. Você vai se surpreender com a energia, a receptividade e os conhecimentos à disposição.

Por mais comunicação real.
Até a próxima.

 

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É empreendedor, Diretor da GoJob Brasil, business advisor, mentor e articulista – [email protected] – www.linkedin.com/in/elerihamer –

 

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here