23/02/2020 – Nº 609 – Ano 15

 

Tanto na vida pessoal como na profissional não sou adepto a mantras, verdades absolutas ou jargões. Aqueles termos ou expressões que nos são colocados como verdades inquestionáveis, indiscutíveis, intocáveis ou imutáveis. Em síntese, qualquer ditadura, mesmo que seja conceitual, me incomoda.

Com o uso massivo das mídias sociais, há milhares delas sendo propaladas e vendidas à exaustão, travestidas de teorias comprovadas, pululando na nossa timeline diariamente, mesmo que muitas sejam incapazes de passar pela mais grossa das peneiras da cientificidade ou mesmo da prática. O viés evangelizador normalmente vem apoiado por ruidosas estratégias de marketing.

Uma dessas verdades incontestes marteladas há anos na cabeça de qualquer profissional conectado e que busca ascensão de carreira, sucesso profissional ou pessoal, está na célebre frase “saia da zona de conforto”. Como se isso fosse um lugar que ninguém deveria estar ou buscar.

Entendo que quase tudo é relativo. Que os caminhos não são únicos, as verdades são situacionais, as soluções aplicadas são sempre baseadas no contexto e os indivíduos carregam propósitos distintos que por si só seriam o suficiente para determinar a derrocada dessa finalidade mágica que a expressão busca emprestar.

Mas vamos tentar olhar essa questão sob outro prisma. Ao contrário do que esse mantra nos quer fazer acreditar, creio piamente que na prática, para sua realização pessoal ou profissional, cada um de nós deveria estar permanentemente em busca da sua zona de conforto individual. Aliás, acrescento que devemos perseguir e se apoderar de várias zonas de conforto ao longo da nossa trajetória e não apenas uma. Coadunando com aquela ideia de que a felicidade não é um ponto de chegada e sim um modo de viajar.

Por conceito, o que seria uma zona de conforto? Entendo que seja um locus hipotético, um momento, um ambiente profissional ou pessoal em que você se sinta satisfeito, realizado e pleno no desempenho de suas atividades. Enfim, confortável e feliz consigo mesmo.

Mas, não é bem isso que o senso comum defende. Basta fazer uma busca simples na internet por essa expressão e veremos que existe uma compreensão aparentemente equivocada. Como exemplos de alguém que está na zona de conforto, surgem “você não atinge as metas; sua carreira está empacada; seu dinheiro termina antes do mês; você não produz com eficácia; falta criatividade” dentre outras milhares equivalentes.

Me questiono: qual pessoa se sentiria confortável ou numa zona de conforto nessas circunstâncias em que não produz com qualidade, não avança na carreira e não atinge as metas, alimentando ciclos viciosos e improdutivos? Me falta compreensão, pois qualquer resposta me foge do razoável, já que todas essas citadas criam desconforto individual, mas nunca comodidade.

Talvez essa situação seja melhor representada se estivéssemos falando de “Zona de Leniência, Zona de Apatia” ou algo semelhante. Quando nos contentamos mediocremente com o que está posto e não encontramos energia ou motivos para iniciar algo novo, diferente ou desafiador, tirando-nos da inércia. Mas nunca de uma zona que possa ser chamada de conforto.

Por isso, me arrisco a recomendar que cada um de nós devesse começar entendendo qual é sua própria zona de conforto e seu propósito? Em que momento e com quais atividades nos sentimos confortáveis no trabalho, por exemplo? Quando atingimos as metas mais altas ou quando atingimos apenas a primeira meta? Quando somos instados a desafios diária e rotineiramente? Ou quando a estabilidade paira?

Pessoalmente, o que me causa desconforto é a falta de desafios, a luta solitária e a estabilidade sem perspectiva. Daí não confundir conforto com apatia e leniência. A busca sistemática de zonas de conforto nos faz perceber que a mudança é um elemento inerente a vida. É a felicidade em si.

A monotonia hedonista pode explicar em parte essa necessidade para sermos felizes no trabalho e na vida. Mas isso já é assunto para outro artigo.

Até a próxima.

 

Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É empreendedor, Diretor da GoJob Brasil, business advisor, mentor e articulista – [email protected] – www.linkedin.com/in/elerihamer – Originalmente publicado no Jornal A Tribuna – www.atribunamt.com.br

 

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