A chegada do ano 2000 deixou muita gente desesperada, afinal, havia uma premonição de que seria o fim do mundo. Pois bem, tudo aconteceu como se costume: comemorações de Natal, Réveillon e nada mudou, só a data no calendário!

Mas não é que de 2009 para 2010 novas premonições abalaram a confiança das pessoas e, de novo, o mundo ocidental continuou tal e qual estava: capitalista!

Pois bem, acabamos de comemorar a passagem de 2020 para 2021 e, novamente, o mundo não acabou, a não ser para as milhares de pessoas vítimas da Covid-19, que tem se incumbido do trabalho de eliminar grande parte da população. E há quem comemore, “não tinham mais serventia” para o sistema produtivo na atualidade mesmo!

Sei que é cruel falar dessa forma, mas também sei que a pandemia veio de “encomenda” para um sistema que hoje em dia sobrevive com menos da metade da população existente. Assim, mesmo que algumas vidas “úteis” também venham sendo sacrificadas, o importante é o saldo final: menos gente para ser extirpada por meios antidemocráticos, antiéticos e desumanos. Bem no estilo da letra daquela música sertaneja: “Boi de piranha”.

Que mundo é este em que vivemos, meu Deus? Um mundo em que a vida humana se tornou número de uma estatística financeira e administrativa segundo a qual tudo o que “sobra” deve ser eliminado como se fosse números que se subtrai de uma conta?

O pior é que cada um, individualmente, se julga capacitado e indispensável o suficiente para não ser eliminado e, assim, mantém sua dedicação ao trabalho a qualquer custo, até que, de repente, descobre que é tão substituível por uma máquina como qualquer outro, mas, daí, já é tarde. Só lhe resta um lugar no exército atônito de milhares de eliminados dos setores produtivos que poderão, em breve, morrer vítima da violência nas ruas e mesmo nas mãos da polícia, do vício em drogas, de inanição ou de algo dessa natureza.

Mas, se o desenvolvimento científico e tecnológico é uma realidade inevitável, como impedir que o desemprego em massa leve milhares de pessoas à situação caótica que suas vítimas passam a viver a partir de então? Como garantir uma vida digna a todos, se a cada dia diminui mais as vagas de emprego, aumenta a pobreza e a miséria e, consequentemente, a marginalidade?

Será possível sonhar com um outro tipo de organização social em que o tempo de trabalho seja cada vez menor, mas que seja garantido a todos a oportunidade de cuidar mais de si mesmos, de viajar e conhecer outras culturas, curtir tempo de lazer com a família, apreciar obras de arte, exercitar outras competências como música, escultura, dança, entre outras habilidades artísticas, sem viver à margem da sociedade, sem passar fome, sem se drogar, enfim, viver com a dignidade a que todo e qualquer ser humano tem direito?

Eu gosto de pensar que sim. Sei que é utopia.

Mas o que é utopia afinal?

Segundo Pedro Renno, do canal youtube Parabólica, utopia é uma palavra de origem grega que significa negação de um lugar ou lugar nenhum (u = negação e topia = lugar). No entanto, o conceito de utopia, como um lugar ou algo inalcançável, foi criado por Thomas More, um escritor, humanista e cristão do século XVI. Crítico da sociedade inglesa e autor da obra “A Utopia”, ele retrata um suposto diálogo com um viajante que teria vindo ou conhecido uma ilha perfeita, onde as relações sociais eram igualitárias, em que que o dinheiro não tinha valor, ou seja, um lugar que, provavelmente, não existia, era inatingível ou inalcançável. Essa ilha chamava-se utopia.

Mas, tal conceito de utopia sofreu novas conotações a partir de então, “sai do conceito de lugar e vai para o conceito de ideia, com os primeiros socialistas no início do século XIX”. Socialistas que passaram a imaginar uma sociedade perfeita, em que haveria uma conciliação entre as classes e uma destruição completa do antigo regime (capitalista). Mas, logo, Karl Marx e Friedrich Engels vão denominá-los de socialistas utópicos, porque eles não acreditavam na conciliação entre as classes. Para ambos, o caminho para o fim da exploração da classe trabalhadora seria a luta de classes, porque a burguesia jamais reconheceria seu papel de exploradora, nem abdicaria de suas benesses enquanto tal de forma espontânea.

Em outras palavras, para Marx e Engels, só um levante do proletariado em defesa de seus próprios interesses e necessidades poderia levar ao fim da exploração pela burguesia. Trata-se, pois, de um socialismo utópico, mas científico, uma vez que o conceito de utopia deixa de estar relacionado a um lugar e se torna uma ideia racionalmente pensada a partir de estudos do contexto histórico da humanidade, sobretudo, do capitalismo.

Enfim, utopia, como uma ideia, sobretudo científica, ou seja, racional e histórica, chega a ser uma necessidade para o ser humano, porque na busca do impossível ele não para e na maioria das vezes o mais importante é o caminho! E EU GOSTO DE CAMINHAR!

 

(*) Wilse Arena da Costa é professora, doutora em Educação. Palestrante, escritora e membro Fundadora da Academia Rondonopolitana de Letras/MT, Cadeira n° 10

 

 

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here