Falar dos desafios que todos estão enfrentando nesse período atípico não é fácil, pois a pandemia do novo coronavírus, além de ceifar milhares de vidas, nos obrigou a mudar hábitos em relação à higiene e ao convívio social. Queremos aqui destacar, especificamente o desafio das professoras da educação infantil, levando em consideração que havia o contato presencial, o toque, o carinho e as brincadeiras com objetivos de estimular e ampliar o desenvolvimento de cada criança, de acordo com sua idade e individualidade. O professor promovia momentos de socialização e interação, porém isso foi nos tirado após alguns dias do início do ano letivo.

Em Rondonópolis, os docentes após um decreto municipal, começaram a trabalhar usando as tecnologias, pois era preciso dar continuidade ao ofício e não deixar as crianças serem prejudicadas em seu desenvolvimento. Dessa forma, tem-se o primeiro desafio, que é justamente lidar com as mídias sociais, aplicativos de conversa, de vídeos, de edição. Foi preciso perder o medo, a vergonha e encarar as câmeras dos celulares; dançar, cantar e conversar com as famílias, pedindo permissão para adentrar em seus lares; saber do seu dia a dia e como estavam os pequenos, que tiveram sua rotina diária modificada. Com quem estavam enquanto os pais trabalhavam? Como as famílias estavam lidando com a situação? E quem havia perdido o emprego? Ou perdido um membro familiar? Também foi preciso aumentar em nós a sensibilidade e a empatia, pois entender e se colocar no lugar do outro é muito importante, principalmente porque cada família precisava ser respeitada em sua intimidade.

No processo de aprendizagem da criança, normalmente o professor era o mediador, sempre tendo um olhar atento e sensível para atender as necessidades delas. Considerando esse momento de isolamento social, que estão no convívio de suas famílias, nós professoras precisamos estreitar os laços e ter a parceria das famílias, pois nesse momento elas seriam mediadoras. Foi então necessário refletir sobre um projeto que a Unidade executaria de forma online, com uma linguagem acessível aos pais/responsáveis desenvolverem tanto com os bebês, quanto com as crianças bem pequenas. Assim, propomos experiências e interações por meio das brincadeiras, estimulando o desenvolvimento das múltiplas linguagens, ou seja, estimulando a oralidade através de músicas e da literatura infantil; o movimento corporal, a exploração do meio ambiente que estão inseridos; as noções de grande e pequeno, alto e baixo, fino e grosso; experiências com diversos tipos de papéis, texturas e cores; enfim, as propostas de trabalho foram pensadas e preparadas após muita leitura sobre o distanciamento e como os pequenos poderiam continuar avançando sem perder a qualidade de antes; bem como organizando kits pedagógicos à serem entregues periodicamente aos pais e/ou responsáveis, para que os mesmos pudessem desenvolver em casa no melhor momento com seus filhos.

Outro desafio surge então que é organizar o ambiente escolar com segurança para que os pais fossem buscar os kits; e isso aconteceu, sendo que houve uma organização de dias e horários para cada turma, a disponibilidade de álcool em gel, sabonete líquido, papel toalha, distanciamento e uso obrigatório de máscaras; flexibilizou-se o melhor horário para que eles buscassem os materiais que eram feitos com muito carinho e com objetivos lúdicos contribuindo para o desenvolvimento das crianças atendidas.

É importante ressaltar que ser nunca foi fácil, ainda mais nesse atual cenário que estamos vivenciando e sobre isso, Imbermón (2011), afirma que em tempos de mudanças rápidas e contínuas, todo profissional deve atualizar-se. Entendemos que o “SER” professor exige uma formação contínua e permanente dos saberes da docência, no entanto, para lidar com esse novo desafio imposto pela pandemia, foi necessário, aprender a lidar com outros fatores que fogem da docência.

Damos aqui outro destaque que foi a parceria com as famílias, sendo esse um dos principais elementos para o sucesso da educação. É comum acreditar que cada um deve cumprir seu papel separadamente, no entanto, os pais e a Unidade devem estar em constante sintonia, tendo como objetivo final o pleno desenvolvimento infantil. É preciso compreender que a educação não é responsabilidade restrita da escola, bem como não está confinada aos muros da instituição. Todos os ambientes em que as relações humanas acontecem são, por definição, também ambientes em que o aprendizado se dá e como não foi possível se ter a educação formal em tempo de pandemia, as famílias puderam encontrar na escola um elo para a promoção dos saberes na formação dos seus filhos. Para que isso acontecesse, foi de suma importância a comunicação; pois fazer com que pais encontrassem nos docentes um suporte para entender como poderiam contribuir para o desenvolvimento de seus filhos, ainda que ela se realizasse provisoriamente em casa foi um dos maiores desafios. Além disso, foi preciso que essas famílias fizessem as devolutivas do que estava sendo proposto, pois a partir delas, iríamos fazer os relatórios descritivos das crianças.

Alguns pais não participaram e tiveram seus motivos; enquanto outros foram muito generosos, entenderam a importância do que estava sendo proposto e foram parceiros em também expor como mediavam as propostas enviadas.

Segundo Kulhmann (1999), a infância não é um mundo imaginário na vida da criança, na verdade é a interação da criança com o mundo real, pois é a partir daí que as crianças se desenvolvem, participam de um processo social, cultural e histórico, apropriam-se de valores e comportamentos próprios de seu tempo e lugar, e as relações sociais são parte integrante de suas vidas, de seu desenvolvimento. Dessa forma, não poderíamos deixar de contribuir para que as crianças ampliassem seu conhecimento de mundo e apesar de tantos desafios, foi salutar tudo o que foi feito e ainda esta sendo feito nesse ano em relação à Educação Infantil. Ressaltamos que as propostas também tinham o objetivo de alegrar, de inspirar a imaginação e a criatividade, e não foi de cunho obrigatório.

Enfim, acreditamos nas crianças, que elas têm voz própria, que devem ser ouvidas e consideradas com seriedade. Foi assim que trabalhamos; vencendo os desafios impostos, principalmente o de estar vivo, lidamos com nossos medos, nossas limitações e incertezas. Em certos momentos até desanimamos, contudo o sentimento de acreditar que a criança é um importante ator social, partícipe da construção da sua própria vida e da vida daqueles que a cercam nos motivou na caminhada e podemos até afirmar que tudo valeu a pena.

 

(*) Carla Andressa Santos Muniz, Jusenir Batista Montalvão e Maria do Carmo Ferreira dos Santos Silva são professoras da Educação Infantil na UMEI Monteiro Lobato.

 

 

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns às autoras do texto. Texto muito bem elaborado expondo os novos desafios da educação em tempo de pandemia. Desafios aos professores, aos pais e aos alunos também. Todos tiveram suas funções no processo ensino aprendizagem bastante modificadas e, precisando simultaneamente de enfrentar de perto esse novo modelo de ensino; o ensino remoto. As transformações do/no mundo inteligível acontecem em ritmos diferentes entre as pessoas, mas, a necessidade do momento fez com que praticamente quase todos saíssem de sua “zona de conforto” para se “aventurar” no mundo digital tão distante de muitas pessoas. Praticamente todos foram pegos de surpresa e tiveram que se “adaptar” o quanto antes para poder acompanhar essa “evolução” rápida imposta pela pandemia do covid 19. Toda e qualquer mudança causa transtorno: dor, alegria, nostalgia, prazer, satisfação, insatisfação, etc simultaneamente. Cabe aos envolvidos em tal situação tirar proveito e, consequentemente, absorver o que é positivo do processo e excluir os pontos negativos. Acreditamos que, apesar do momento ser bastante desafiador para todos nós que estamos na Educação, algo positivo ficará para sempre em todo esse processo. Que venha a vacina contra essa pandemia para que retornemos ao “novo normal” e sigamos trabalhando arduamente na Educação em busca de novos horizontes ao futuro do nosso País.

    AIRES JOSÉ PEREIRA é coautor do Hino Oficial de Rondonópolis; Professor e Coordenador do Curso de Geografia da UFR; Doutor em Geografia Urbana pela UFU; Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-UnB; Graduado e Especialista em Geografia pela UFMT; Membro Efetivo da Academia de Letras de Araguaína e Norte Tocantinense e possui 17 livros publicados, entre eles: “Ensaios Geográficos e Interdisciplinaridade Poética” na 6ª Edição.

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