Os eleitores de Rondonópolis precisam ter em mente que a conservação da natureza não é um assunto de menor importância nas eleições municipais, quando comparado com temas como educação e saúde.

Ao contrário, há uma correlação direta entre uma cidade que preserva sua diversidade biológica e o bem estar humano.

Um exemplo contundente: em bairros bem arborizados, a incidência de doenças respiratórias e de câncer de pele é usualmente menor.

Uma agenda ambiental municipal inteligente para os poderes executivo e legislativo evidentemente envolve muitas outras questões além da arborização, ainda que multiplicar as árvores nas ruas de Rondonópolis seja uma prioridade. Nossa arborização é “banguela”, cheia de lacunas.

Ela é ademais pobre em diversidade de espécies, como demostrou o engenheiro florestal Leandro Bernardo Leite, do Mestrado em Geografia da UFR.

Nós, do Mestrado em Geografia da UFR, iniciamos em 2015 o projeto “Biodiversidade Urbana de Rondonópolis”. Essa iniciativa tem dois objetivos: a conservação da natureza urbana e o aumento da qualidade de vida dos rondonopolitanos.

Ao longo desses cinco anos, temos desenvolvido estudos cujas informações podem ser traduzidas em políticas ambientais.

O biólogo Deleon da Silva Leandro analisou parâmetros fisiológicos do sangue de pardais capturados em avenidas de grande circulação de veículos, caminhões e motocicletas.

Seus dados apontam que a poluição gerada pela frota de veículos automotores prejudica a saúde humana, e é um impacto ambiental que vem se agravando.

Até agora, os poderes públicos municipais não formularam nenhuma política para a melhoria da qualidade do ar.

A veterinária Juciane Maria Johann mapeou com coleiras GPS os perímetros de deslocamento de gatos domésticos pela área urbana de Rondonópolis.

A cientista descobriu que os gatos deslocam-se em média 889 m² durante a estação seca. Quanto mais os gatos se locomovem, maior é o impacto que eles causam, principalmente pela predação de animais silvestres.

Ela também constatou que gatos castrados locomovem-se menos. Diminuir a perambulação dos gatos é bom para a natureza e bom para os gatos. Juciane analisou prontuários de clínicas veterinárias e constatou que atropelamentos são a principal causa de atendimentos médicos aos felinos.

Outras informações muito importantes coletadas pela veterinária quantificam o tratamento que os tutores dispensam aos seus animais.

Apenas 52% dos gatos são castrados, 70% dos tutores não restringem os seus movimentos e apenas 39% dos gatos recebem anualmente todas as vacinas previstas.

Gatos fazem bem à saúde humana. Bebês que convivem com gatos têm menor incidência de doenças respiratórias, e há evidências de impactos positivos à saúde mental de pessoas que convivem com eles.

Mas eles são exímios predadores de fauna silvestre, e podem transmitir doenças à fauna e às pessoas.

Uma política para o manejo adequado dos gatos é uma necessidade óbvia para Rondonópolis, e essa questão tem sido ignorada pelos governos municipais.

O desmatamento acelerado do Cerrado evidencia a importância da conservação de fragmentos urbanos desse bioma.

A bióloga Cathiane Martins de Oliveira mapeou, em sua pesquisa para o Mestrado em Geografia da UFR, centenas de áreas de Cerrado nas zonas urbana e rural de Rondonópolis.

As biólogas Lohane Oliveira, Jaiane de Jesus e eu identificamos 127 espécies de aves – 15% da avifauna do Cerrado – no Parque Natural Municipal de Rondonópolis. A bióloga Isabela Negri está catalogando os morcegos que ocorrem aqui. Eles predam mosquitos transmissores de doenças.

O geógrafo Gedeone Lima está quantificando quantos quintais existem em Rondonópolis. Estimamos encontrar algo entre 50.000 a 70.000 quintais.

Esses espaços podem ser ocupados com árvores frutíferas, o que reforçaria a segurança alimentar e aumentaria o suporte à fauna do Cerrado.

Diante do desafio da preservação da natureza aliada ao aumento da qualidade de vida dos rondonopolitanos, cabe-nos perguntar: caro eleitor, o que seus candidatos a prefeito e vereador têm à dizer sobre o meio ambiente?

(*) Fabio Angeoletto é professor do Mestrado em Geografia da UFR

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