“Fratelli tutti” – Todos irmãos – é a interpelação antiga, mas sempre atual, da autenticidade cristã, que inspira a nova Carta Encíclica do Papa Francisco. O Santo Padre retoma a exemplaridade de São Francisco de Assis, que partilha o segredo de sua grande paixão: o amor a todos, ‘todos irmãos’. O amor que vem de Deus é a fonte sempre transformadora. A referência argumentativa insubstituível está inscrita na Primeira Carta do Evangelista João – “Deus é amor, e quem permanece em Deus, permanece no amor” (I Jo 416). A exemplaridade de Francisco de Assis é inspiradora comprovando que vale temperar a vida com o sabor do Evangelho, deixando-a repleta de amor. O amor é capaz de gerar mudanças significativas nas pessoas, convertendo-as em instrumento de transformação social. O amor fecunda a profecia que o mundo precisa ouvir, fortalecendo e iluminando entendimentos para inspirar gestos qualificados.

Percebe-se a razão que faz o Pobrezinho de Assis, mesmo após oito séculos de sua presença testemunhal, continuar preciosa referência para a contemporaneidade. A sua vida é lição com propriedades singulares na tarefa de se estabelecer aproximações e diálogos. São Francisco inspira a competência humana para “reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada um nasceu ou habita”. Importante lembrar que São Francisco de Assis já havia inspirado o Papa Francisco a escrever a Carta Encíclica Laudato Sí, sobre o cuidado com a casa comum. Agora, o seu testemunho, a partir da nova Encíclica do Papa, evoca a centralidade da fraternidade universal e da amizade social. O brilho dessa profecia faz reconhecer a necessidade de se encontrar respostas e saídas para mudar a civilização contemporânea, reconfigurando tudo – da economia à convivialidade.

Especialmente aos cristãos é imprescindível cultivar o amor ao próximo, selo de autenticidade do amor a Deus, lembrando que o Mestre Jesus entrelaçou dois mandamentos. Reconhecer que não é possível separar esses mandamentos garante a superação dos riscos das escolhas equivocadas, justamente por desconsiderarem o próximo. Só um coração sem fronteiras tem o tecido próprio do amor que gera mudanças, é alicerce da amizade social e da fraternidade universal. Avanços tecnológicos, científicos e culturais são indispensáveis, mas é evidente que, sem o amor, o mundo não encontrará a nova ordem almejada. A Encíclica “Fratelli Tutti” ensina que a vivência do amor é o caminho para fazer nascer, entre todos, o anseio mundial pela fraternidade.

A civilização contemporânea carece de relações mais fraternas. A triste realidade de que, mesmo após mais de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, muitos ainda não os reconhecem, ou são privados de suas garantias, sinaliza a carência generalizada de fraternidade. Urgente é, pois, inspirar-se pelas chamas da profecia, que alertam para a inigualável força do amor fraterno, capaz de mudar o coração e iluminar a mente. Como sublinha o Papa Francisco, sem essa força persistirão as inúmeras formas de injustiças alimentadas por visões antropológicas redutivas e por um modelo econômico fundado no lucro, explorador, que depreda de modo indiferente e doentio a Casa Comum, além de descartar e, até mesmo, assassinar seres humanos.

No primeiro capítulo de sua Carta Encíclica, o Papa Francisco aponta as sombras de um mundo fechado, as contradições presentes nestas duas décadas do terceiro milênio, período de anunciados progressos, mas também de retrocessos históricos. O remédio do amor fraterno é reapresentado, em tom de profecia, com suas propriedades para amalgamar projetos urgentes, inspirando a capacidade para gerar integração e cooperação entre as pessoas, no passo a passo crescente da solidariedade. Um contraponto aos interesses que hoje, conforme sublinha o Papa Francisco, colocam todos contra todos – uma luta em que vencer significa destruir, fazendo com que muitos considerem um delírio sonhar com o desenvolvimento integral a serviço de toda a humanidade.

Entre as guerras de configurações variadas e perversas insere-se o fenômeno da exasperação, exacerbação e polarização nos contextos políticos. Ao outro, que pensa e é diferente, é negado até mesmo o direito de existir. Muitos se permitem utilizar recursos abomináveis para ridicularizar aqueles com quem se discorda, alimentando preconceitos e discriminações, promovendo a exclusão social e permanecendo indiferentes à violação dos Direitos Humanos na convivência social. Há uma esperança para mudar essa realidade. Só o amor permitirá enxergar para além do “eu”, do “outro” e reconhecer a ligação entre todos. Não somente considerar o “eu” ou o “outro”, mas arquitetar o “nós”, passo decisivo para construir o novo tempo almejado. Todos possam investir na reflexão e nas indicações que a Encíclica “Fratelli Tutti” apresenta. As chamas da profecia brilhem e prevaleça o amor, capaz de construir a fraternidade universal, efetivando a indispensável e urgente amizade social.

 

(*) Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

 

 

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