A ação de aprender implica, necessariamente, a construção de conexão com o outro, de forma gratuita que mantenha a abertura ao diálogo.

No contexto em que vivenciamos é importante analisar que, com o ensino remoto, “a relação mediada pelo computador reifica o outro, declara a realidade alheia distinta e, portanto, só pode criar relações de poder mediada” (Lucas Casagrande- IHU 12/08/20), que caracteriza a ausência do outro, na sua relação de proximidade, para além do face-a-face.

A questão que se coloca para reflexão é que, com o ensino remoto, a escola pode estar sendo destruída no que há de mais significativo, naquilo que constitui a sua razão de ser na temporalidade histórica. Antes de configurar como espaço formal de transmissão de conhecimento e de ensino-aprendizagem.

A escola caracteriza-se como lugar de encontro de pessoas. Espaço para criar novas ideias, transformações e formação para agir criticamente no mundo. Espaço de uso comum e democratização do ócio.

No tempo de adversidade, em que a possibilidade de ensino está sendo o remoto, o coletivo de educadores deve ter muito cuidado para não deixar a vida e a escola ser reduzida a mera sobrevivência do mercado.

A escola, ao contrário do que pensa o desejo do empreendedorismo, é o lugar de catalização e mobilização da cultura, de reencantar a vida, na perspectiva da constituição de identidade de sujeito coletivo. Lugar fértil para alimentar a esperança, que impulsiona a educação para a justiça social, como garantia da vida digna e mobilização da curiosidade epistemológica.

A escola configura desde a sua existência, como o espaço de encontro, autoconhecimento, troca, formação de grupo de proximidade, para formação e construção coletiva da pessoa humana.

Por isso, que ela caracteriza como espaço necessário, para nutrição da amizade profunda, do afeto e com o contexto do saber, popular e sistematizado, como representação e criação social.

Na relação eu-outro-objeto como “arquitetura de todo o saber, a representação, a linguagem e a comunicação são o único caminho que temos para chegar ao conhecimento” (Jovchelovitch, 2008).

O ensino remoto, embora compreendemos que é emergencial, hoje transforma na mediação de conteúdo para essa realidade vivenciada.

Contudo, por mais necessário que seja para essa realidade, o ensino fica destituído do espaço, que nutre o vínculo de pertencimento e proximidade de relação intersubjetiva. Perde-se o caráter da amizade, como suporte de afeto e conhecimento, que requer o processo de aprendizagem.

A longa permanência do ensino remoto, focado no conteúdo desvinculado de sua historicidade, significa a destituição do desejo e necessidade da presença do outro.

Penso que o resultado desse modelo de ensino, associa-se a armadilha da lógica, que reforça a ideia de saída para meritocracia e política do individualismo como vaticina o neoliberalismo.

Isso significa a aposta na negação do diálogo, da amorosidade e da educação como prática social e instrumento para emancipação humana. Na dialeticidade da contradição da vida, no novo tempo da adversidade, que se apresenta como substrato, que instrumentaliza para ruptura com a boniteza da escola.

É o tempo do engessamento da relação e mente, para com a presença do outro, no processo de sua formação humana. Pode ser o novo jeito de ensino-aprendizagem, vinculado a cultura da desumanização, que produz o esvaziamento de si e do outro, enquanto existência no mundo.

Na perspectiva da educação libertadora, compreendo que é salutar estabelecer uma reflexão sobre a importância da relação entre escola e família, como instituição responsável pelo processo de educabilidade da nova geração.

O tempo é para encontrar caminho de proximidade histórica, no que caracteriza o processo da educação, para o resgate da compreensão de formação da pessoa humana, para além do limite de um espaço social.

No contexto do mundo em mudança, entendo que respeitando aquilo que é da natureza de sua existência, a escola e família, mais do que outrora, tem a responsabilidade coletiva com a formação integral do cidadão.

A sua proximidade é decisiva na responsabilidade da educação do ser pessoa e no compromisso como o diálogo irradiador da cultura, para constituição da dignidade da pessoa humana. Educação que desperta para o ser pessoa como prática da liberdade, aberta ao novo tempo, ao diálogo, ao respeito e solidariedade no processo de partilha do conhecimento.

No tempo de adversidade do ensino remoto, apesar da contradição, desejo e negação, faz-se necessário pensar na prática educativa, que possa ajudar o estudante a desenvolver a sua capacidade de interpretação, argumentação e formação da consciência crítica.

Pensar como parte do processo pedagógico da escola, a educação midiática. A escola, no contexto do novo tempo, precisa criar projeto de educomunicação, para desenvolver a capacidade de leitura, narrativa e alfabetização midiática, a fim de que, o estudante possa melhor analisar a veracidade dos conteúdos vinculados.

No contexto social de influência da mídia, a política de educação e formação do coletivo da escola precisa compreender que a formação para a cidadania politizada, a educação para mídia é indispensável.

 

(*) Dr. Ademar de Lima Carvalho é professor de Filosofia e teoria da educação/UFMT-UFR.

 

 

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