Para a maioria das pessoas, inclusive para alguns pais e educadores mais desligados, os termos letramento e alfabetização costumam ser entendidos como se fossem a mesmíssima coisa.

Ou seja, como se ambas as palavras fossem sinonímicas que, grosso modo, referem-se ao processo de ensino e/ou de aprendizagem como algo bem menos complexo e custoso do que ele realmente é, principalmente se considerarmos o modelo de escola pública que temos atualmente no país.

No entanto, muitos são os estudiosos e pesquisadores da área da Educação e da Pedagogia (como Paulo Freire, Magda Becker Soares e Emília Ferreiro) que veem diferenças significativas entre os termos.

Para eles, embora esse entendimento não seja uma unanimidade entre seus pares, o letramento ocorre durante toda a vida.

Antes, durante e depois do processo de alfabetização, seja de crianças, jovens ou adultos que não aprenderam tais conteúdos “na idade certa”, com o “método mais adequado” ou por meio da “atividade mais significativa”. Desta forma, em resumo, nessa perspectiva, entende-se que um indivíduo alfabetizado não é necessariamente alguém letrado, e vice-versa.

Em outras palavras, embora a alfabetização ainda seja tradicionalmente considerada um dos pilares da educação básica, ela quase sempre se resume a um processo basicamente técnico e repetitivo de ensinar ou aprender a ler e escrever, ao passo que o letramento se configura no domínio crescente e criativo da linguagem falada e escrita, que vai muito além dos seus sons ou sinais gráficos.

Dito de outra forma, o indivíduo letrado (e não apenas alfabetizado) é capaz de se comunicar com o mundo ao seu redor, não sendo apenas um mero repositório de informações, nem um reprodutor de habilidades adquiridas e repetidas mecanicamente, ou um retransmissor de ideias alheias.

E é neste contexto de imensa complexidade e de lutas ideológicas que ambos os termos são geralmente traduzidos e entendidos como uma coisa só (literacy) na língua inglesa, embora, como vimos, não o sejam.

Para letramento, em língua inglesa, já houve quem utilizasse a construção ‘initial reading instruction’, por exemplo, tamanha a dificuldade de se encontrar uma tradução mais corriqueira e adequada.

Ao passo que o verbete ‘alphabetization’ até existe em língua inglesa, mas ele é quase sempre compreendido como “the act of putting in alphabetical order”. Já o phonics (cuja ênfase está nos sons obtidos, e não apenas na organização gráfica das palavras), modelo adotado pelos falantes da English language, não é um sistema altamente silábico, como é o nosso.

E daí decorrem as dificuldades do aluno brasileiro de, por assim dizer, ‘aceitar’ tais disparidades na pronúncia e na ortografia dos dois idiomas, quando ou se comparados.

O fato é que a etimologia também possui um papel primordial na forma escrita atual da língua inglesa, embora ela nem sempre ajude a entender a forma de falar historicamente adotada “por eles”.

Isso quer dizer que as relações entre as letras e os sons das palavras do idioma bretão são mais complexas para nós do que aquelas existentes na língua portuguesa do Brasil, for instance.

Ou seja, diferentemente da nossa Portuguese language, na língua inglesa não é comum, ressalte-se, o uso de sinais de acentuação, bem como não há nela muitas restrições quanto ao uso das letras, que podem aparecer duplicadas, em encontros vocálicos e consonantais considerados estranhos ou impossíveis no nosso idioma, além de grafias e pronúncias alternativas (se comparados os diferentes tipos ou variedades de inglês existentes no mundo hoje).

Isso explica, ao menos parcialmente, o porquê da necessidade de haver um maior cuidado com as metodologias ou as abordagens utilizadas nas escolas do nosso país quando o assunto em pauta é o ensino de línguas estrangeiras (notadamente do inglês) para crianças, jovens ou adultos cujo conhecimento linguístico (e tecnológico) ainda é, para dizer o mínimo, limitado ou, digamos, está longe do ideal.

Sabendo-se que é preciso muita prática oral e escrita para que nossos aprendizes consigam ler/falar fluentemente e ouvir/escrever corretamente, reiteramos a nossa preocupação quanto a não haver maiores estudos em nossa cidade e região nessa área, nem o aumento dos esforços ou investimentos por parte dos diferentes governos para ao menos tentar averiguar o nível de proficiência tanto de professores quanto de alunos que têm a língua inglesa como parte do seu currículo escolar.

Enquanto isso não acontece, os índices de analfabetismo (e letramento) em língua inglesa continuam evidentes e aviltantes em todos os níveis, pois o eterno achismo e o perigoso improviso didático-metodológico ajudam a manter ou fortalecer a velha (e inescrupulosa) prática de fingir que algo é/foi ensinado (ou aprendido) na maioria das escolas públicas e particulares do nosso município, e região.

 

(*) Valéria Cristina Negrette da Nóbrega Buzatti é pós-graduada em Ensino de Língua Inglesa (UFMT) e professora efetiva da rede municipal de ensino; Jerry T. Mill é mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro-fundador da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras), associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis e autor do livro Inglês de Fachada.

 

 

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