Nas últimas semanas, os consumidores vêm sentindo um considerável aumento nos preços de diversos produtos que compõem a cesta básica dos brasileiros.

De acordo com o Índice de Preços do Consumidor Amplo (IPCA), o grupo de alimentos e bebidas acelerou 0,78%, em agosto de 2020. Os grupos com deflação foram os de vestuário (-0,78%), que teve sua demanda retraída devido ao isolamento social, e o de educação (-3,47%) em decorrência da diminuição das parcelas mensais cobradas pelas instituições de ensino.

A variação geral do IPCA de agosto foi de 0,24%, considerado o maior desde 2016. Alimentos importantes para a cesta básica acumulam altas significativas: feijão (35,9%), ovos (7,1%), leite (23%), óleo de soja (18,6%) e o arroz (19,2%), nos oito primeiros meses de 2020. Em relação aos preços das proteínas animais, também ocorreu a mesma tendência ascendente, com incrementos da carne de frango (7,5%), carne suína (19,4%) e carne bovina (38%).

Essa conjuntura é extremamente prejudicial, pois a elevação do custo da sesta básica impacta, principalmente, os segmentos mais pobres da sociedade que enfrentam, de forma mais severa, os efeitos conjugados da pandemia, desemprego e desigualdade social.

Numa perspectiva de curto prazo, o aumento de preços se deve a três causas principais: (i) a entressafra de produtos; (ii) a valorização do dólar que estimula as exportações; e (iii) o auxílio emergencial, responsável por injetar 50 bilhões de reais por mês na economia, e que aumentou a demanda por bens de primeira necessidade.

Como resposta, o governo atuou via a isenção de tarifas de importação, contudo, em virtude da exígua oferta internacional e dos preços elevados em dólares, há pouco espaço para a reversão rápida das condições de mercado. Consequentemente, a carestia dos preços agrícolas tende a se manter até a colheita de safras ampliadas nos meses vindouros.

Numa perspectiva de médio e de longo prazos, a conjuntura atual demonstra que a Conab – Companhia Nacional de Abastecimento, nos últimos trinta anos, perdeu a sua capacidade de estabilização dos preços agrícolas. Até a sua rede de armazéns foi vendida.

O Brasil se tornou o segundo exportador agropecuário mundial, mas quase toda a comercialização se encontra em mãos de empresas multinacionais: Cargill, Bunge, Louis Dreyfuss e ADM. Inclusive, uma estatal chinesa, a Cofco, está aumentando a sua capacidade de armazenamento, processamento e distribuição no Brasil.

As margens de comercialização dessas empresas são obtidas via a logística e o financiamento das safras. Especificamente, os contratos a termo antecipam insumos aos produtores rurais, com descontos sob juros altos, sob a condição de entrega da produção agrícola após a colheita.

O agronegócio brasileiro, portanto, encontra-se numa posição de dependência em relação a poucas empresas estrangeiras que priorizam o escoamento aos mercados internacionais.

Em síntese, como uma potência agrícola, o Brasil deveria adotar a estratégia de tornar a Conab numa trading global, com capacidade de comercializar a produção brasileira, via estoques reguladores, concorrendo domesticamente e nos mercados externos, com as tradings multinacionais.

O agronegócio nacional, atualmente, se posiciona de maneira frágil e desarticulada frente aos interesses estrangeiros. Isso favorece a redução das margens de comercialização aos produtores rurais e a insegurança da oferta de alimentos para a população brasileira.

 

(*) Artigo elaborado pelo projeto de extensão “Economia Além dos Muros” do curso de Ciências Econômicas – UFR, por Cintia Sanches, graduanda em Ciências Econômicas da UFR, voluntária global pela AIESEC e embaixadora do Politizar-MT; Vagner Neris, graduando em Ciências Econômicas da UFR; Luís Otávio Bau Macedo, professor associado do curso de Ciências Econômicas da UFR e docente permanente do Mestrado em Gestão e Tecnologia Ambiental/ICAT/UFR

 

 

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