Exatamente neste sábado, 19, completaram-se quatro décadas do aniversário de um acontecimento inesperado, que vitimou um pequeno grupo de homens, cada um a seu modo, especiais. Pelas circunstâncias do destino, ele se tornou um acidente aéreo que, ao ser lembrado, faz aflorar sentimentos dos mais diversos naquelas pessoas que tinham uma relação mais próxima com cada um deles. Compreensivelmente, tais emoções vêm com um pouco mais de adrenalina naquele que atualmente é o único sobrevivente daquele que era para ser apenas um voo rápido de ida e volta a uma propriedade rural no município de Paranatinga, mas acabou se transformando numa catástrofe aérea: o empresário Zildo Rodrigues Machado, mais conhecimento na cidade e na região como Queimadinho.

Ocorre que, mesmo passados 40 anos do ocorrido, Zildo ainda traz consigo algumas recordações que, mesmo com o passar do tempo, insistem em permanecer no seu corpo e na sua memória, irretocáveis. Primeiro, o convite feito pelo amigo Luziano Borges Muniz para conversarem sobre um assunto comercial de interesse mútuo durante a viagem. Depois, o encontro com os demais integrantes do grupo: o piloto Odilon Tinoco, o médico Ivo Ferreira Mendes e o jornalista e empresário Aroldo Marmo de Souza, uma figura de enorme popularidade e influência na imprensa e na seara política local na época.

Segundo Zildo, no voo de ida, o avião Comanche em que eles estavam saiu de Rondonópolis programado para pousar na Agropecuária Chapada, em Paranatinga, onde havia uma pista de 1.200 m. Na agenda, estava prevista uma rápida visita à fazenda dos sócios Luziano e Dr. Ivo, com o regresso de toda a tripulação para Rondonópolis no mesmo dia, apenas algumas horas depois do pouso. No entanto, terminada a visita, o grupo chegou à conclusão de que teria apenas duas opções para voltar para casa. A primeira, mais demorada, seria o piloto seguir sozinho no avião e pegar os demais companheiros de viagem numa outra pista de decolagem que ficava distante mais ou menos 12 km da Fazenda Ribeirão Preto, onde eles estavam, vizinha à propriedade dos amigos Luziano e Dr. Ivo. A segunda opção, mais temerária, era tentar alçar voo daquela pista mesmo, mais curta e ideal para aeronaves com menos passageiros.

Entretanto, eis que o gerente da fazenda não parecia muito disposto a transportar os demais homens por aquela distância de 12 km, tendo comentado que, se ele tivesse autorização, ele mesmo pilotaria o avião. Consultado por Luziano sobre ele ser capaz ou não de levantar voo daquela pista, o piloto respondeu afirmativamente, mas ficou no ar um quê de dúvida e preocupação, mas não se falou mais no assunto. Alguns minutos depois, feitas as devidas despedidas, o grupo entrou no avião e o piloto fez todos os procedimentos de praxe para colocar a aeronave no ar.

No entanto, quando o avião alçou voo, ele não atingiu a altura necessária para evitar o choque com uma cerca de aproximadamente dois metros no final da pista. Com o choque, a asa se quebrou, o avião perdeu a estabilidade, virou e caiu dentro de uma das repartições do curral. Logo depois da queda, houve algumas explosões e parte da aeronave pegou fogo. Na queda, Aroldo já caiu morto, com o pescoço quebrado, mas com poucas queimaduras no corpo. Luziano e o piloto morreram no local, queimados. Dr. Ivo (que faleceu de causas naturais em 2010) e Zildo sobreviveram ao acidente com muitas queimaduras, e foram socorridos.

Embora não conhecesse Aroldo Marmo de Souza muito bem, a ponto de serem considerados grandes amigos, Zildo me disse guardar consigo a imagem de uma pessoa bastante comunicativa e de fácil amizade, algo tão amplamente repetido e exaltado pelos incontáveis amigos e admiradores do Homem do Plá, dentre os quais estão os empresários Antonio Ribeiro Torres (1940-2020) e Bidu Zaher, o radialista/jornalista, advogado e vereador Orestes Miraglia de Carvalho, o aposentado Jason José de Almeida, o funcionário público municipal Manoel José da Silva (mais conhecido como Seu Maninho) e o funcionário público federal Lamartine da Nóbrega (1928-2016).

O fato é que, hoje, mesmo depois de tantos anos, algumas perguntas continuam no ar e merecem destaque. Por exemplo, como seria Rondonópolis atualmente, caso essa fatalidade não tivesse acontecido? E mais: dado o seu histórico de sucesso nas áreas em que ele mais se destacou, até onde o trabalho de Aroldo Marmo de Souza como político, jornalista e homem público o teria levado? Ele teria mesmo sido eleito prefeito da nossa cidade e governador do nosso estado, como muita gente previa? Além do Jornal A TRIBUNA, quais teriam sido seus outros feitos como empresário? Perguntas estas que permanecem (e permanecerão) sem a devida resposta, já que a vida, dizem, é um grande mistério. Um mistério que, neste caso, já dura 40 anos e um dia…

 

(*) Jerry T. Mill é mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro-fundador da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras), associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis e autor do livro Inglês de Fachada.

 

 

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here