15/09/2020 – Nº 595 – Ano 14

 

Já não tenho mais meus pais comigo. Infelizmente ambos partiram deste plano. A última foi minha mãe, há quase um mês. Isso nos faz refletir com mais atenção sobre seus legados, a convivência e porque não, as histórias prosaicas que, por consequência, também nos ensinam muito.

Ao remexer nos muitos guardados e dar os destinos possíveis do que ficou, encontram-se verdadeiras relíquias que possuem importância afetuosa, mas principalmente nos remetem a perceber o passado com outros sentimentos e outros valores daqueles da origem dos fatos.

Um desses achados foi o meu primeiro caderno, antes de eu entrar na escola. Para quem não sabe, foi minha mãe que me ensinou as primeiras letras e os primeiros números. Além da lida diária na roça, da ordenha das vacas e dos afazeres da casa, ela ainda encontrava tempo para estimular a alfabetização. Meu pai completou apenas o primeiro ano e minha mãe a 5ª série.

Esse caderninho desbotado e remendado, me fez retornar longe na minha história pessoal e ver o esforço quase insano de fazer de mim alguém que não chegasse cru na escola. Os traços retos que eu deveria repetir para conseguir coordenação, as linhas curvas e os primeiros números e letras para entender o básico que ela julgava necessário.

Como eu ainda não estava matriculado na escola e dada a minha insistência em querer saber qual o meu nível, ela inventou um primeiro ano “encostado”, escrita com letra cuidadosa na capa, abaixo do meu nome e do endereço Linha Capivara. Local onde morávamos na roça.

Contudo, esse caderninho me fez lembrar de outro fato muito importante: o da minha matrícula efetiva, um ano mais tarde e do modo prosaico como ocorreu. Como já possuía algumas habilidades na escrita, embora não estivesse alfabetizado completamente, alguns vizinhos e amigos afiançaram a ideia de que eu poderia ser matriculado direto na 2ª série, ao invés de na primeira. Algo não incomum na época.

Um certo dia, acompanhei meu pai para falar com a diretora da escola que ficava na vila, há 3 quilômetros de casa, sobre essa possibilidade. Ele, sempre muito receoso de avanços desmedidos e dono de uma humildade que beirava a vergonha, me apresentou para a Dona Béti.

A escola era muito simples, de primeiro grau incompleto, que ensinava apenas até a 5ª. Série. A diretora mantinha sua sala no final do corredor, ao lado de uma pequena sala de aula transformada em biblioteca. Ouviu meu pai com atenção e prontamente informou que faria uns testes comigo para saber meu nível e minha capacidade.

Lembro com clareza que ela me pediu para reconhecer algumas letras, números e figuras geométricas simples. Também algumas relações entre colunas que não lembro bem o que era. Me saí razoavelmente, mas não me senti a vontade.

Ao final, a diretora deu o veredito para o meu pai: ele está bem. Já sabe bastante. Podemos matricular ele no segundo ano sim. Vai entrar um pouco fraco, porque tem algumas coisas que ele ainda não sabe, mas vai poder avançar sem problemas.

Nesse momento, meu pai, aparentemente satisfeito e muito tranquilo com a situação, decretou, para a surpresa da diretora: pode avançar, matricular na segunda? Mas vai entrar um pouco fraco? Então, está bem. Pode matricular ele na primeira série mesmo.

E foi assim que meu pai nos deu uma lição simples de que não precisamos atropelar as coisas e nem fazer alarde. Mais tarde reconheci que essa decisão do meu pai me ajudou muito em ter segurança e confiança na minha capacidade ao “entrar firme no primeiro ano”, como ele mesmo justificou para a minha mãe quando chegamos em casa.

Até a próxima.

 

Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras e excepcionalmente nesta quarta-feira. É empreendedor, Diretor da NextBusiness, business advisor, mentor e articulista – [email protected] – www.linkedin.com/in/elerihamer

 

 

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