Só hoje entendi a mensagem do meu vô Vicente, quando eu desmontei o seu radinho de pilhas, e na montagem sobrou algumas pecinhas, daí eu coloquei tudo no cantinho predileto dele e fiquei pianinho.

Quando ele chegou da roça naquele dia e ligou o rádio para ouvir a Voz do Brasil, me chamou e eu desconfiado fui para perto dele. Ainda bem que o rádio funcionou. Ele me falou na sua voz mansa, entre algumas baforadas do cachimbo:

— Filho, não se preocupe com o radinho, essas peças aí estavam sobrando mesmo.

Entendi agora, também, porque ele me chamava de filho. E, quando o meu netinho me entregou o meu celular com o visor quebrado, eu olhei para ele que estava com os olhos ainda rasos d’água e disse-lhe:

— Filho, não liga, eu ia trocar mesmo esse visor e essa capinha, já estavam arranhados.

Meu amado vô, obrigado pela compreensão e lição que me concedeu há 50 anos, lá na sua casinha na cidade mineira de Montalvânia.

(*) Hermélio Silva é escritor e membro fundador da Academia Rondonopolitana de Letras, cadeira número 6.

 

 

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