Junho e dezembro sempre foram os meses que marcaram a minha infância e adolescência. O mês de junho pelas inesquecíveis festas juninas, e dezembro pelos marcantes natais a qual esperávamos pelos prometidos presentes ainda do início do ano letivo, que se passássemos de ano, ganharíamos um. O período que trago em questão, trata-se das festividades juninas que vivenciei e muitos vivenciaram há algumas décadas. Quem não se lembra das fogueiras de todas as alturas, que ouviam as mais variadas histórias, e se tivessem “bocas” nos falariam e seriam testemunhas de muitos causos. Na parede das casas refletiam a luminosidade das fogueiras, muitas vezes com figuras imaginárias dos portões ou árvores refletidas, que pareciam pessoas e monstros.

Quando havia lua, clareava ainda mais a rua, a chácara ou a fazenda. As estrelas faziam parte dos cálculos matemáticos, e havia sempre um ao redor da fogueira que dizia:

— Minha mãe disse que cada estrela contada é uma verruga que sai.

Velhos tempos, onde se podia ficar até altas horas, sem nenhum perigo de assalto. Os vizinhos se reuniam, organizavam a festa em meses que antecediam junho e a gurizada após a aula era responsável pela elaboração das bandeirolas que enfeitavam a rua, que podiam ser da revista “Veja”, ou daquele caderno da escola do ano anterior.

A pipoca, o quentão, a mandioca e o pé-de-moleque pareciam ter outros sabores diferenciados dos dias atuais, nem passava por nossas cabeças essa coisa de “transgênico”. Virávamos parentes ali mesmo na rua, e durante muito tempo nos cumprimentávamos como: “primo ou prima”. Se não tivesse o lápis para aquele afamado bigode caipira, valia também aquele carvão lá do quintal da dona Maria, da última queima dos galhos secos da frondosa árvore.

Os incansáveis ensaios da quadrilha da escola nem nos preocupávamos, só de fazer parte da quadrilha nos enchiam de orgulho, ainda mais se fôssemos o noivo ou a noiva. Em casa, nos dias que antecediam a apresentação, nossas mães caprichavam com muito amor e carinho em nossos trajes. Ah e a pescaria? Essa era a mais disputada, corríamos para as mesas onde nossos pais estavam, e só saímos depois de conseguir alguns cruzeiros, moeda da minha época. Infelizmente o brilho das fogueiras nas ruas não podemos ver mais, os fogos e bombinhas cada vez mais proibidos. Vizinhos já não se conhecem, grades e cercas elétricas ganham a cena e ficar em frente de casa é risco de morte. As músicas permanecem no YouTube, mas para a nova geração de hoje em dia “é brega pra caramba!!”. Os cabelos brancos chegaram, nossas crianças e adolescentes engordam no sofá viciados em tecnologia, sem criatividade nenhuma e a saudade aperta o peito sabendo que esses inesquecíveis tempos jamais voltarão.

(*) Cleyton Fraummer é músico e geógrafo.

 

 

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