Nesses últimos dias temos enfrentado momentos estranhos, diferentes e misteriosos que revelam a nossa fragilidade diante de algo para o qual não estávamos preparados. Corremos o tempo todo para suprir as nossas necessidades materiais e nos esquecemos de que somos apenas passageiros aqui na terra. A cada dia os noticiários transmitem o aumento do número de pessoas atingidas pelo coronavírus, mas pouco são revelados os elevados números de famílias que voltaram a se encontrar e a se amar; de pessoas que descobriram dons maravilhosos na criatividade cotidiana; de quantas pessoas redescobriram o prazer de cozinhar em família e para a família; de quantas pessoas estão ressignificando o valor do abraço e dos entes queridos. Muitas atenções se voltam para os idosos, muitas vezes esquecidos e abandonados.

É tempo de medo, de insegurança, de tempestade, de dores e de angústias, mas acima de tudo, é tempo de reaprendizados. Precisamos de uma reengenharia em nossas vidas; de valorizar a vida como “dom e compromisso”, como nos alerta a campanha da fraternidade deste ano. A graça e o amor de Deus continuam jorrando sobre nós, mas precisamos abrir espaços para acolhermos esses presentes maravilhosos que nos sustentam, nos animam e nos devolvem a alegria. Aos poucos fomos fechando os espaços que Deus ocupava em nossas casas, em nossas escolas, em nossa sociedade e colocando contra valores de uma cultura de morte que oferece um prazer exagerado, mas que nos afasta da nossa essência divina. O espetáculo, a ironia e o individualismo estavam nos afastando das coisas simples do dia a dia.

Esse tempo de quarentena nos ensina que é possível ser feliz com poucas coisas; que é possível fazer de nossas casas espaços de convivência fraterna, de oração, de partilha, de brincadeiras há muito esquecidas, de olhar mais para os nossos filhos, irmãos, esposos, pais, avós e perceber em cada pessoa a riqueza do amor de Deus. Na bênção Urbi et Orbi, o Papa Francisco dizia: não somos autossuficientes, sozinhos afundamos. Precisamos do Senhor, como os antigos navegadores precisavam das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos, como os discípulos, que não há naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida não morre jamais.

Estamos juntos, no mesmo barco. É preciso ouvirmos as orientações dos especialistas e continuarmos em nossas casas, nos fortalecendo e nos cuidando cada vez mais. De acordo com os dados oficiais (G1, São Paulo, 28/03/2020), no Brasil, até o dia 28 de março, as Secretarias estaduais de Saúde contabilizaram 3.477 pessoas infectadas e 93 mortes em decorrência do corona vírus, números estes que certamente não aumentaram ainda mais em decorrência do distanciamento social e do isolamento assumidos pela maioria da população brasileira.

É tempo de ESPERAnça, de paciência e de confiança. Tempo de valorizar categorias que silenciosamente cuidam de nós: cientistas, médicos/as, enfermeiros/as, pessoal da limpeza, da segurança, dos supermercados, do transporte de mercadorias, dos postos de combustível, etc.. Aproveitemos esse tempo de quaresma, de quarentena e de silenciamento para revermos nossos valores e recomeçarmos, na alegria da Páscoa, com mais ânimo, mais força e mais valorização da vida.

(*) Profª Laci Maria Araújo Alves, da Paróquia Bom Pastor.

 

 

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