10/04/2018 – Nº 487 – Ano 12

 

Precisamos urgentemente qualificar o debate e as ações. Temos um problemão para resolver (que está apenas no início) e o país está dividido entre dois grupos de abduzidos. Isso tem mantido o debate raso, agressivo e improdutivo. Uma conversa de surdos, enquanto o país padece.

Não tenho mais disposição para discutir com quem não quer discutir e penas emitir a sua opinião “correta” como donos da verdade. Precisamos, como país, provar para nós mesmos de que há vida inteligente fora desses dois grupos. Se não houver, precisamos criar essa faixa de pessoas capazes de analisar sem passionalidade.

Por isso, assim como na estatística, devemos imediatamente desprezar esses dois extremos para que possamos recuperar a capacidade de discutir e formular, para chegar na melhor solução viável. Nunca a ideal, já que nesse caso ela não existe.

Precisamos ter a humildade necessária para recorrer e confiar naqueles que estão no front de batalha, diretamente envolvidos, atuando ou munindo os que atuam, com informações para as estratégias da guerra. Nesse caso, temos três: os médicos/enfermeiros (principalmente epidemiologistas), os economistas/administradores e os matemáticos. O resto é achismo, teimosia, prepotência ou egoísmo. Tudo ao mesmo tempo ou somente desinformação.

Existe por exemplo uma ideia em comum, de que o Brasil não suporta ficar muito mais tempo em casa, de quarentena total, sem a economia girar. Vai ter fome, miséria e violência. E que os governos precisam auxiliar direta, rápida e intensamente quem mais necessita nesse momento atual. Mitigar e transferir renda à população (dinheiro inclusive), como começamos a ensaiar semana passada com o pacote. Todos os países, na medida das suas possibilidades, estão fazendo isso. Nesse sentido o nosso pode e deve fazer mais.

Outra conclusão aderente é que precisamos reduzir a velocidade da disseminação com o isolamento social temporário e intensificar os preparos do sistema de saúde de todas as maneiras possíveis para a fase pior (o nosso sistema é abrangente, mas precário). Todos os países estão fazendo isso. E quem não fez, se arrependeu amargamente.

Ao mesmo tempo um outro grupo está estudando o comportamento local do inimigo e construindo em tempo real as tendências, gerando mais informação. Nesse sentido, os médicos e matemáticos estão trabalhando arduamente.

Como já disse, não há solução ótima e nem óbvia. Assim, diante de tudo que tenho lido, assistido e com os muitos profissionais do Brasil e de fora com os quais tenho conversado, percebo que, apesar dos rompantes dos abduzidos, estamos indo muito bem até agora, inclusive já com parâmetros locais de comportamento do vírus mais confiáveis do que os de fora.

Mas, para dar tempo ao governo e a sociedade civil organizada se preparar melhor para o choque de realidade (e ele virá, não interessa de que lado você esteja), precisamos aguardar ao menos mais uns 10 a 15 dias em quarentena (são fundamentais). Depois disso, ninguém tem certeza, mas há indícios de que poderemos (talvez deveremos), voltar gradativamente ao normal nas nossas atividades (para evitar o colapso econômico-social), mantendo os grupos de risco particularmente protegidos.

Mesmo assim, tenho a clareza de que teremos muitas baixas e sequelas. Ninguém vai escapar ileso. Muitos morrerão em função do vírus e outros indiretamente pelos danos econômicos como, por exemplo, a depressão e o suicídio. Outros nunca se recuperarão. Não há solução ótima.

Por isso, os que puderem ficar em quarentena precisam ficar, justamente para auxiliar a proteger os que não podem, e não estragar tudo o que o governo está fazendo de positivo até agora. Nesse particular, o cara do momento se chama ministro Mandetta. Um gestor de crise firme e sensato, que tem dado mostras de liderança interessantes. Tem meu respeito até o momento. Uma surpresa muito agradável no atual governo.

Os tempos são muito difíceis, mas devo lembrar que não debato por paixão, ódio ou desespero. Na história moderna nunca enfrentamos nada parecido e precisamos estar cientes disso diante de todas as evidências (somado às dificuldades adicionais que temos no Brasil desigual). Arroubos de coragem e intempestividades são muito prejudiciais nesse momento.

Temos a sorte de poder olhar para outros lugares onde os problemas começaram antes. Vamos observar os motivos das mudanças de posição dos países e seus gestores com a evolução da doença. Não precisamos fazer igual, mas podemos tirar ótimas lições e adaptar nossas ações inteligentemente.

O debate precisa continuar, mas posições radicais e ofensas gratuitas de lado a lado não contribuem em nada. Pelo contrário, tornam a discussão estéril, rasa e as posições mais irracionais. Apenas demonstram a falta de inteligência. Justamente num momento em que precisamos qualificar o debate e construir soluções.

Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É professor, workshopper e palestrante – [email protected] – www.linkedin.com/in/elerihamer.

 

 

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