“We have found that many teachers, consciously or unconsciously, avoid teaching pronunciation because they regard it as ‘difficult’.”*
-Tim Bowen and Jonathan Marks, in The Pronunciation Book

O Brasil faz parte da longa lista de países em que a língua inglesa ainda tem o status de língua estrangeira. Isso quer dizer que, na prática, a prioridade nas escolas regulares (públicas ou particulares) são a leitura (silenciosa) e a compreensão/interpretação de texto – um convite explícito para o uso de exercícios de tradução. Fora do ambiente da sala de aula, embora o inglês faça parte do cotidiano do cidadão comum, o idioma quase sempre é ignorado. Curiosamente, apenas uma minoria de países, cerca de 70, de um total de 193 nações ao redor do mundo (segundo a ONU), tem um contato mais, digamos, íntimo com a língua inglesa, onde ela é o idioma oficial, segunda língua ou goza de algum prestígio social. Uma realidade bem diferente da nossa, portanto.

Ora, sabemos que, regra geral, o ser humano lê antes de escrever e ouve antes de falar. No entanto, quando consideramos estudos linguísticos que contemplam o ensino/aprendizagem das milhares de línguas que o ser humano é teoricamente capaz de aprender, percebemos que generalizações podem levar a equívocos memoráveis, pois qualquer idioma tem suas especificidades, bem como (com o passar do tempo) um sistema próprio, único. O que parece não mudar muito é a tendência histórica (e cultural) de tratar a questão da pronúncia das palavras como algo de menor importância, uma espécie de Gata Borralheira (ou Cinderela) do campo da linguagem, em especial na seara do ensino de língua estrangeira, ainda que a lógica insista em esfregar na nossa cara, a todo instante, que uma comunicação eficiente depende da nossa habilidade de integrar nosso conhecimento de variados aspectos gramaticais e lexicais com a nossa produção oral.

Considerando-se a realidade brasileira, porém, mitos e crenças acerca de aspectos diversos da língua inglesa contribuem decisivamente para manter o seu status de ‘complicada’ ou ‘difícil’ de aprender. Especialmente quando entram em cena professores mal preparados, para quem a questão da pronúncia (e da ortografia) das palavras que compõem o repertório lexical da English language é um bicho com bem mais do que sete cabeças. Claro que não há como negar que a pronúncia do inglês apresenta algumas dificuldades para quem não tem contato constante com o idioma. Traduzindo: além de sons específicos (alguns deles muito distantes daqueles que temos no português), a grafia de uma considerável gama das suas palavras nem sempre oferece uma base precisa para a sua pronúncia ‘desejável’. Isso quer dizer que, na prática, uma mesma vogal ou um determinado grupo vocálico, por exemplo, pode adquirir sons diferentes de uma palavra/frase para outra, dependendo inclusive da posição em que ela está! Pode acreditar: na língua inglesa, em geral, a entonação e a pronúncia devem ser memorizadas, pois não há como defini-las por regras fixas e imutáveis.

Outro fato importante é que, em inglês, o som de cada uma das vogais nem sempre é o mesmo. Se temos grupos vocálicos, então, sua pronúncia pode se alterar completamente. A letra ‘a’, por exemplo, pode ter som aberto ou fechado e soar como /ei/, /ó/, /é/, /e/, como pode ser percebido em ‘barber’, ‘ago’, ‘make’, ‘mall’, ‘have’ e ‘stay’. Já consoantes ou grupos consonantais têm pronúncia muito própria no inglês, dando ao idioma um som característico. A letra ‘h’, a propósito, pode ser muda ou ter o som aspirado (como se soltássemos ar com força pela boca), algo que não existe no português, como percebemos em ‘hour’ e ‘house’. Outras dificuldades envolvem o ‘i’, o ‘r’ e o odiado ‘th’.

A boa notícia é que o inglês é uma língua musical, o que não a impede de apresentar uma variedade de sotaques e contrastes importantes, perceptíveis dentro e fora de um mesmo país como a Inglaterra, por exemplo. Nesse contexto, como não há uma fórmula mágica para prever quais palavras serão consideradas ‘mais fáceis’ ou ‘mais difíceis’ de ouvir e pronunciar por parte do aprendiz (ou professor) do idioma, o mais sensato a fazer por parte de iniciados e iniciantes no estudo do inglês é criar uma espécie de roteiro e rotina que permita superar eventuais dificuldades, para que não ocorram situações constrangedoras ou incidentes engraçados que, vez por outra, fazem com que a compreensão da mensagem ocorra de modo truncado, ou simplesmente não ocorra, “porque eles falam rápido demais”.

Em certos momentos, então, para não fazer feio e não “assassinar” a língua inglesa (um legado que já conta quinze séculos), é preciso estar preparado e confiante, bem como ter a humildade de reconhecer que não sabemos tudo da área da pronúncia da nossa língua portuguesa, imagine então da English language! O melhor a fazer é conviver com essa questão com bom humor, dedicando-se sempre que possível às idiossincrasias da lingua franca do momento, não achando que sabe demais (ou de menos) sobre o assunto. Afinal, (com)provado está, a pronúncia do inglês pode ser algo tão imprevisível quanto nós, seres humanos, dear reader.

P.S.: *”Nós descobrimos que muitos professores, consciente ou inconscientemente, evitam ensinar pronúncia porque eles a consideram ‘difícil’.”

(*) Jerry T. Mill é mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro-fundador da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras), associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis e autor do livro Inglês de Fachada.

 

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