Recentemente, eu e os professores Jeater Santos (UFMT) e Luís Guilherme Aita Pippi (UFSM) publicamos uma resenha na revista científica “Cities”, sobre o livro “Avian Ecology in Latin American Cityscapes”. Neste artigo, apresento as informações mais importantes do livro, que foi organizado pelos biólogos Ian MacGregor-Fors e Juan F. Escobar Ibáñez. Com a urbanização global, as cidades precisam ser planificadas para atuarem também como áreas de conservação biológica. Sem embargo, a ecologia urbana, cujas informações são imprescindíveis para a planificação com uma perspectiva ambiental, é uma ciência incipiente na América Latina. De fato, predominam artigos acadêmicos publicados sobre ecologia urbana que descrevem estudos de cidades do hemisfério norte, embora a maioria dos países megadiversos esteja no Hemisfério Sul: na América Latina há sete hotspots globais de biodiversidade, e seis dos 17 países megadiversos são latino-americanos.

De acordo com o capítulo um, esses países também se caracterizam pelas altas taxas de urbanização, e de cidades que crescem velozmente, replicando em asfalto e tijolos as enormes diferenças de renda entre ricos e pobres. Essa iniquidade se materializa também na biodiversidade: usualmente, na América Latina, os bairros pobres não possuem áreas verdes, e a cobertura arbórea é parca, tanto em espécies quanto em número de árvores. No capítulo 2, os autores revisam a bibliografia sobre aves em cidades latino-americanas.

A flora urbana tem uma grande influência sobre a riqueza de espécies de aves. A flora das cidades, por sua vez, ocupa os espaços que os gestores especificam. A gestão, ou a falta dela, determina em que nível as paisagens urbanas serão amigáveis aos pássaros, e essa é a afirmação central do capítulo 3. A riqueza de espécies cresce correlacionada ao aumento da diversidade e complexidade da vegetação e também ao tamanho das manchas de vegetação. A infraestrutura cinza (edificações, ruas, construções) influencia a abundância de aves, principalmente porque há algumas espécies habilidosas em explorar recursos em áreas urbanizadas. A origem das espécies de plantas (nativas ou exóticas) influencia o número de espécies de pássaros. Vegetação nativa e mesclas de nativas e exóticas parecem ser mais favoráveis à avifauna.

O capítulo 4 atualiza e compila o conhecimento sobre abundância, demografia e dinâmica populacional. O padrão mais consistente da ecologia de aves urbanas consiste no aumento do número de indivíduos, em paralelo ao declínio da riqueza de espécies, refletindo a intensidade da urbanização. A maioria dos estudos sobre a relação das aves com as estruturas urbanas está focada nas infraestruturas verdes. As autoras do capítulo 5 enfatizam que, embora a vegetação urbana desempenhe um papel crucial no estabelecimento e permanência de comunidades de aves nativas, são necessários mais estudos sobre a infraestrutura cinza. Esses estudos seriam úteis para desvendar como as aves respondem à urbanização.

Existem muitas lacunas relacionadas às respostas comportamentais das aves à urbanização. Os autores do sexto capítulo defendem a necessidade de mais pesquisas sobre o repertório comportamental da avifauna urbana. Há várias ameaças aos pássaros das cidades latino-americanas, e elas são descritas no capítulo 7. A predação por gatos e colisões com edifícios são as maiores causas de morte de aves em ecossistemas urbanos latino-americanos. Os autores do 8° capítulo ratificam o argumento apresentado no capítulo 5, da importância de uma gestão urbana que esteja centrada tanto na matriz urbana quanto em seus espaços verdes.

Na América Latina estão quatro dos cinco países mais ricos em diversidade de aves: Brasil, Colômbia, Equador e Peru. Em uma pesquisa que eu e a bióloga Lohane Madalena Pires de Oliveira realizamos no Parque Natural Municipal de Rondonópolis, identificamos 127 espécies de aves, cerca de 15% da avifauna do Cerrado. Dados como esse reforçam a importância das cidades para a conservação da biodiversidade.

(*) Fabio Angeoletto é professor do Mestrado em Geografia da UFMT, em Rondonópolis.

 

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