Não sei quanto a você, dear reader, mas poucos são os lugares desta ou de qualquer outra cidade deste país continental chamado Brasil em que eu me sinto realmente à vontade, como se eu estivesse numa extensão da minha própria casa. Dentre as (dependendo do ponto de vista, poucas ou muitas) opções de que dispomos hoje em dia, a padaria (às vezes também chamada de panificadora) é um desses meus locais prediletos, a não ser que estejam naqueles cantinhos minúsculos e com um quê de fast food restaurant que existem nas redes de supermercados.

Em Rondonópolis, eu já visitei um bom número das dezenas de estabelecimentos comerciais desse nicho no ramo alimentício que temos na região central ou nos bairros. Dessas bakeries (padarias, em inglês), sem querer desmerecer a qualidade e o empenho diário das demais, eu destaco a Moinho (perto da Prefeitura), a Pão de Mel (perto do Hospital Regional) e a Dute (perto do Casario). Nenhuma delas, porém, é tão frequentada por mim, seja de manhã, tarde ou noite, com ou sem os meus alunos, amigos ou familiares, do que a Pão Doce Pão, da família Rabelo, pioneira no município, famosa nos quatro cantos da Rondolândia Desvairada pelo “best croissant in the city” (melhor croissant da cidade, ofcoursemente).

Entretanto, não foi em nenhuma das empresas listadas acima que ocorreu o fato de eu (acompanhado do meu filho) ter de retirar uma senha para posterior atendimento e ser surpreendido com a seguinte mensagem no dispenser/suporte (de senha): tire / take it. Uma grata surpresa, para ser sincero, pois foi a primeira vez em anos de idas a padarias/panificadoras que eu vislumbrei algo assim. Na hora, não me ocorreu ser esta mais uma daquelas muitas situações em que a língua inglesa se faz presente (e influente) no nosso cotidiano, seja isso desejado por nós ou não. Tão acostumado que estou a viver rodeado de English words, foi preciso o meu filho Victor Alexander chamar a minha atenção para o ineditismo daquela situation.

Claro que, olhando ao redor, temos a ocorrência do inglês em um sem número de produtos comercializados nesses locais, como é o caso de bacon, Keep Cooler e Trident, só para citar alguns poucos exemplos, o que somente reforça a tese de que estamos chafurdados na cultura anglo-americana. Independentemente de qualquer viés ideológico, porém, poucas são as coisas que superam a deliciosa sensação de estar num ambiente tão sedutor (pelo aroma e sabor) e aconchegante onde você pode comer e beber em segurança (algo tão importante quanto cada vez mais raro atualmente), bem como ler o Jornal A TRIBUNA, estar com os familiares ou amigos e, talvez, aprender/revisar uma ou outra palavrinha da língua inglesa, visível aqui ou ali, ao alcance dos olhos de cada um de nós, mas que nem todos, unfortunately, veem. Assim é a vida.

Isso me traz à memória a expressão to take something for granted, algo como ‘não dar valor a alguma coisa’, que pode muito bem ser aplicada ao delicioso papel das padarias/panificadoras no nosso cotidiano: a maioria de nós só entende a sua real importância quando, na necessidade, maldizemos e xingamos para todos os cantos pelo fato de elas estarem com suas portas fechadas…

P.S.: A palavra ‘pão’ (tipo francês ou similar), em inglês, geralmente é bread. Por ser incontável, usamos a loaf of bread para dizer ‘um pão’ e loaves of bread para dizer ‘pães’. O que não acontece com roll ou rolls, geralmente traduzidos como ‘pãozinho’ e ‘pãezinhos’, respectivamente.

(*) Jerry Mill é mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro-fundador da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras), associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis e autor do livro Inglês de Fachada.

 

 

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