A reflexão apresentada ao longo do texto, simplesmente, tem a intenção de apresentar um entendimento, que a cicatriz da existência, que se faz presente, com intensidade na maturidade humana, tem raiz histórica, construída no mundo da vida. Como a formação da identidade humana é estruturada como síntese do diverso das multideterminações sociais, faz-se necessário uma leitura crítica da realidade política, para uma compreensão do modo que organiza e dinamiza o exercício do poder nas relações que se realiza na trama social do sistema instituído.

O modo de produção capitalista, conhecido historicamente, gestou o projeto liberal de sociedade, que configura no mundo contemporâneo a versão neoliberal, o estado mercadoria, vinculado a lógica obtusa do obscurantismo populista e conservador. Este sistema tem o apetite insaciável pelos interesses individuais, devastação da mãe terra e exploração da força de trabalho. O resultado da trama perversa tem ressonância na concentração de riqueza e renda na mão de poucos, seguido da exclusão social da massa popular.

Porém, antes de avançar com a reflexão, compete-me a perguntar: você luta qual modelo de sociedade? A responsabilidade de reconstrução de uma sociedade justa e fraterna é tarefa de quem? A população está sendo escravizada por quem e para quê? Por que a população não resiste, o movimento de escravidão? O que tem a ver a política e a religião com isso?

Então, fazendo-se tarde, a multidão se foi conduzida, para assumir o legado da melancolia do estado de crise. Mas, o capitalismo não está em crise. Ao contrário, porque é sua condição de sobrevivência a produção do estado de crise. Logo, no limite que passa a cada movimento de sua reordenação, aumenta a fé na possibilidade de que no acúmulo do capital, na desregulamentação do trabalho, no estado mínimo e liberdade absoluta do mercado é que encontra a saída para a crise. Embora nega a sua identidade política, faz a massa crer que não existe saída á margem do sistema instituído.

O que é perceptível ao imaginário comum é que em nossa realidade, fragiliza o que público, para exaltar o privado. O estado capitaneado pela política neoliberal fabrica a concentração de riqueza e desigualdade social. Acompanhando esse movimento, acentua-se o desenvolvimento da tecnologia, ao mesmo tempo, a extrema pobreza. Isso significa perceber que no extrato da sociedade desigual, o desequilíbrio social, ecológico, econômico e político se curvam a mão invisível do mercado gerador da crise, violência, morte e desagregação social.

Nessa sociedade da turbulência, que (des)educa a nossa geração para o culto da injustiça- sistema injusto- cresce a adesão a prosperidade da idolatria religiosa, como suporte de sobrevivência, a espiritualidade e moralidade do deus encarnação do capital. Aqui cabe a todos uma pausa para um exame de consciência. Até que ponto não somos todos, cúmplices de nossa incapacidade de resistência em resgatar a liberdade que está içada as mãos da manipulação do poder cínico instituído? A sua, a nossa omissão constitui a força vigorosa para perpetuação do mecanismo de perversidade, desse sistema político e governação do estado dominado pela égide do privado e descaracterização da identidade pública.

Fazendo-se tarde, a lógica da mesmice se repete. O que pensa diferente, do que está dado, embora sem lenço e identidade na esfera do poder, denomina, nós outros de comunista. O que não é possível enquadrar na arte do disfarce, é que prevalece a acumulação do capital, aumento da pobreza e abandono da multidão com fome, porque os que têm se negam a repartir. Portanto, é bom que fique inteligível que “as bases racionais da dominação política” se assenta na estrutura de poder dos malignos, que investe contra a liberdade de pensamento, no campo da comunicação, da política e da educação formal. O poder que descaracteriza as humanidades desumaniza a nação com a disseminação da cultura protagonista da guerra de tudo contra todos.

A questão singular, é que para a construção de outra sociedade, cingida a nova ordem política, onde corre “leite e mel”, tudo é colocado em comum, para que não haja necessitados, o povo, sobretudo, os pobres precisam se organizarem para superar a cultura da colônia. Porque uma sociedade erigida ao sabor do pressuposto da visão da colônia se estrutura de forma rígida e autoritária. Sociedade fechada que tem medo da constituição da democracia popular. É uma sociedade que se ver apenas no reflexo da ordem da elite externa. Sobre essa questão, outrora já destacou Freire (1979) que “a sociedade alienada não conhece a si mesma, é imatura, tem comportamento exemplarista, trata de conhecer a realidade por diagnósticos estrangeiros”.

É próprio de uma sociedade fechada desenvolver um sistema de educação para manter privilégio, meritocracia, alienação da massa para não tomar consciência de seu próprio existir. Por isso, a insistência na ideia de neutralidade, na formação desidratada da cultura da escola sem partido e cultura militaresca da ordem de submissão e criminalização da massa popular. Isso significa que está em curso, o projeto de formação da consciência da passividade popular, por isso, o ataque permanente a ideia de democratização da cultura e ao educador/a que se fizer representante dos oprimidos. Compreendo que frente ao “sistema capitalista destrutivo” e religioso como veículo de colonização da consciência popular, o tempo é para resistir e lutar pela justiça social, direitos dos excluídos e empobrecidos de nosso tempo.

Ao contrário do que muita gente pensa, a sobrevivência da humanidade tem a sua razão de ser, porque se fez para viver em sociedade, principalmente, numa relação de coletividade. Assim, o ato de existir implica a presença e pertencimento do outro humano, embora o outro possa, em determinado momento causar estranhamento. Você já pensou como pode ser a vida do humano sem a presença do outro? Que andar da pirâmide social você habita? Que retrato a desigualdade social em sua realidade revela a você?

A maturidade humana, política, pedagogia e filosofia, possibilitou-me um entendimento que somente, “é bem–aventurado o que cuida do necessitado e dos pobres”, para criar condição para sair da condução do poder dos malignos. Assim, o projeto político e religioso capturados desenfreadamente, pelo desejo do lucro e o amor ao dinheiro e alicerçado a exploração, em detrimento do trabalho, da justiça social e do bem coletivo, produz uma mente doentia. Levanta-te povo pela liberdade!

(*) Dr. Ademar de Lima Carvalho é professor de filosofia e teoria da educação/CUR/UFMT.

 

 

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